terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Líquidos

Soslaiando as moças que desfilam pelo calçadão – para isso que servem os óculos de sol – um pingo salgado percorre a testa e me lubrifica os olhos curiosos do calor. Percebo, mas permito que a gota de sal adocicada pela luz siga seu trajeto pela maçã do rosto. Outras gotículas de mim surgem entre o nariz e boca, quase uma lágrima de verão, um sofrimento voluntário ao que me submeto nesta época do ano. Padecer no paraíso, não: é regozijar-se no inferno. Uma cachaça!





Sola do pé na areia quente, bombas e mangueiras espirrando água de algum lugar, caminho obrigatório para quem busca outro líquido salgado, desta vez o mar. Ondas de calor, outras do oceano, uma pororoca de temperaturas, outra de temperamentos. Cadeiras enfileiradas, barracas escondendo gente escondida da lua quente, cerveja gelada, mate e limão, mais suor descendo pelas axilas a caminho das costelas, água engarrafada, nuvens acovardadas pela falta de vento, mais suco de cevada, estalando os beiços de satisfação, um prazer desmedido, medido pela bexiga, outro líquido se forma ali. A língua absorve os gelados liquefeitos, mas a saliva desaparece, então como resolver a boca seca, como saber a saída, se a entrada do calor é incessantemente desesperadora. Não adianta descobrir soluções líquidas, no verão engolimos sapos, e os verões nos engolem inteiros. A cabeça fervida vagarosamente, quantos sangues se misturam, o quente da impaciência, o frio da intolerância, quando chegam os fevereiros, antes e depois da carne. Talvez por isso tenha apenas vinte oito dias, porque nunca se soube porquê no segundo mês do ano cabem tantos dias intermináveis, que passam de hora em hora. O Rio de Janeiro deveria, também, chamar-se Mar de Fevereiro, ora, faria jus –com mérito – à cidade dos vapores e dos líquidos.




E a confusão de desejos do calor desconserta o corpo, a vontade de matar a sede e a bexiga são irmãs gêmeas, nunca se teve tanta vontade de expelir e ingerir líquidos, gelado e quente, necessariamente nessa ordem, onde se tira leite de pedra, ou quase isso, água do côco, mas comemos a pedra, ou melhor, o côco, e as meninas do calçadão já estão bem ali, ó, proporcionando o maior espetáculo da praia: despir-se. Agora fito e não mais as soslaio, quando elas tiram o short, sempre justo ( e que justiça!), rebolando caprichosamente sem sair do lugar, para que o pedaço de pano que não serve mais (agora) escorra joelho abaixo, tirando uma perna e depois a outra, como pulassem a corda uma vez só, lentamente, ou, ainda, quando desprendem a canga da cintura, desenrolando as coxas e o quadril, forrando a areia incandescente com o tecido fino tinturado. O biquíni é coadjuvante –sempre foi – e a graça, agora, são outros pedaços, o de carne, e o de pele. À vista. Aí, a sede que dá é outra e não há líquido que a sacie, mas o paladar também se aguça com a visão. E que visão!




Levanto bêbado e bronzeado de cerveja, mergulho no mar quente e transparente. Quantas águas matarão a minha sede? Tantos cursos desse rio de verão, suor lambendo a fronte, e aperta a vontade de desafogar a bexiga. Acima, no mesmo calçadão do desfile das moças, surgem na mesma passarela as marchas, as orquestras de rua, cervejas ambulantes, mijos ambulantes, suores ambulantes, salivas deslizantes, línguas para fora, outras para dentro, bocas, beijos, abraços, sovacos, enfim, blocos de gente e gente de blocos. Há quem goste, há quem tolere, são temperamentos diferentes sob a mesma temperatura, como fiz entrever mais acima, não no calçadão, mas no segundo parágrafo desta cachoeira de letras, frases e pontos. Prefiro o mar e suas sereias da areia, prefiro a areia com seus tapetes finos e sedosos, que sob eles, repousam as musas da estação mais sedenta do ano. Será que verão como as vejo?





Para isso servem os óculos de sol.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Vapores

Fechar os olhos é refrescar-se. Mesmo buscando refúgio em farmácias, bancos e lojas, quando me arrasto em súplicas por um copo d´água, começo a falar sozinho para me fazer companhia. Se é efeito da temperatura ou surto psicótico, não chega a me interessar saber, basta não fazer juízo da minha cabeça fervida nos dois banhos: o maria e o de sol. Então começo a não mais me reconhecer – se é que já alguma vez – e embaralho a língua, cansada e seca, com os dentes amolecidos pela fome e passo a ter certeza que a rua tornou-se uma imensa cozinha, com fogões ambulantes desfilando na passarela de piche, o mesmo piche que me grudou a sola dos pés, também o mesmo asfalto que agora é uma piscina escura, um mingau turvo incandescente, então meus refúgios, bancos, lojas e farmácias, funcionam como geladeiras imensas, estáticas, congelando meus movimentos, refrescando meu rosto, me proporcionando o prazer instantâneo do contraste das temperaturas. São tantos fogões cruzando meu caminho com suas bocas enfurecidas, panelas espalhadas nas brasas portuguesas, que antes eram pedras, tantas geladeiras fantasiadas de estabelecimentos, além dos microondas transmitindo outras ainda maiores, que até os aeroportos decolam sem sair do lugar, porque lá refresco não há, portanto ir de avião é viajar duas vezes, uma ao percebemos que o saguão não é – mesmo – um freezer, porque o ar condicionado não está condicionado à má sorte, portanto, pergunta-se, que é o destino senão um vínculo de previsões, quando a viagem de volta está concluída antes da de ida. E quando embarcamos, aí, sim, consuma-se a segunda viagem, nem fria - nem calculista. Devaneios de verão são delírios de veraneios. Ah, que sede!






Sobrecarregado e sonolento, sob miragens e sombras, vou-me repartindo nos vapores da terra, sob sol noturno diário. Faz calor e o asfalto me suga os pés. A fronte encharcada de tantos calores que não faz mais diferença se aperta a chuva. A estiagem é um intervalo d´água, um reflexo sem espelho. A caminhada pela calçada escaldante me arranca lascas do tempo – não necessariamente só do meu – e padeço voluntariamente a cada respiração planejada: os pulmões funcionam como motores de arranque, ora, não por isso vou mais rápido para onde não calculei, qual benefício isso me traria, trocar de ares é sempre bom, principalmente quando cuspimos calor carbônico e sorvemos oxigênio misturado com luz. Sem sombra de dúvida, respirar é um bom negócio, mesmo quando se está quase vivo.






Sonolento e sobrecarregado, e aporrinhado pelos apelos condensados dos que estavam aqui embaixo, o céu lilás desceu do pedestal. Descompôs-se numa enxurrada que mais pareciam espirros seguidos de escarros e cuspes, e assoadas no nariz, correntes de ar, ares quentes, ventos úmidos, que todos correram e foram se embrulhar nos fogões andarilhos e nas geladeiras gigantes, havia os que ficassem nos corredores do imenso supermercado de gente, havia quem acenasse do alto das prateleiras de concreto, edificadas ao passo dos corredores, além das outras pessoas que posicionaram-se em outras seções. Um castigo em pingos grossos e ríspidos.






A cidade tornou-se um caldeirão de fumaça, chovia em todos os cantos, as brasas portuguesas evaporavam-se, as panelas ferviam ao lado dos fogões metálicos, assim como os caixotes com rodas, crianças derretendo pela rua, velhos gratinando nas filas intermináveis de uma geladeira econômica, outros na dos fármacos, o mingau de asfalto engrossava a medida que os pingos compridos de água lambiam os suores de quem voltava do trabalho, assim como alforriavam os operários que trabalharam a seco na construção predial de oásis à beira-mar. Não importava que os alagamentos transtornassem as pessoas, mas era curioso como, de uma hora para outra, a cidade trocava um caldeirão de piche, fogões, geladeiras, brasas, calores e gente, por uma imensa panela cheia de água morna, cuspida de cima por sabe-se quem, ou não se sabe mais, também isso não interessaria mais discutir, o negócio é que estávamos condenados a sermos escravos do tempo.





O sol implacável e a chuva imprevisível. Era como se fôssemos vapores de nós mesmos, como espíritos vagando pela rua, mas sem abandonar a carne, estávamos como fantasmas pairando pela atmosfera vulcânica do verão. A cidade estava condenada a não mais depender dela mesma – se é que já alguma vez – e tornou-se refém da natureza.





E para isso não há previsões.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Das certezas

para Julieta




Cercado de livros e garrafas. Era assim que gostava de passar o tempo quando estava em casa, deitado no sofá, janelas abertas no contorno da varanda, chuva lá perto, sol em outro lugar, filmes-que-passam-na-televisão-e-não-mudamos-de-canal-mas-deixamos-no-mudo, devorando um livro que sugeriu uma amiga, mas sempre, mas sempre mesmo, esquecia o lápis no quarto quando estava na sala, e sempre deixava na sala quando ia pro quarto, então que graça teria ler sem sublinhar, não há, assim como tinha mania de começar a sublinhar antes de terminar de ler a frase, porque é como se previsse (logo quem) que a frase já seria boa de qualquer maneira, simplesmente pelas três ou quatro primeiras palavras. Pensava que na vida também fosse assim, que se poderia adivinhar o que pudesse acontecer só por ter vivido alguns primeiros anos. E aí entendeu que a vida, e o que mais, era sim uma frase interminável, com pontuações, vírgulas, travessões, aspas e interrogações. Com fôlegos. Ao recuperar o seu, retomou as leituras, a da vida e a do passado, e tratou de tirar a poeira da consciência e das prateleiras: desfez-se em lágrimas antigas.




Ao afiançar-se de que o argumento era válido e fundamentado, teve que esfregar os dedos dobrados da mão esticada à altura do outro ombro, como se estivesse se gabando de mais um feito, o da razão. Estava certo. Abriu a boca em curva, caprichosamente exibindo os dentes grandes e claros. Vestir-se bem é saber sorrir – lembrou. O guarda-roupa modesto, sem paletós nem histórias, cheirava a mofo e naftalina. Algumas camisas dobradas empilhadas em outros tempos, mas o manequim era o mesmo. Do armário sem portas veio um bafo quente dos cabides solitários naquele mundo impenetrável, para uns chama-se solidão, para outros, passado. Enfileirados sem ordem, desfilavam parados, suspensos num bastão quebrado em diagonal, ao serem tocados pelas mãos sóbrias da saudade, e eram examinados um a um, como se fossem páginas de um livro antigo, à procura do trecho preferido: um traje de gala. Cada cabide era uma página virada de sua vida. Não havia mais sapatos.




Empilhou discos velhos na mesa que ficou vazia. Empurrou a escrivaninha mais para o canto sem que encostasse no sofá. Às plantas fingiu o afeto que nunca teve, mas talvez o tivesse e não soubesse, e puxou assunto consigo mesmo, como se do céu assistissem ao seu diálogo diário, não imaginário, ora com as plantas ora com a estátua da varanda, uma carranca do Rio São Francisco, presente de um amigo. Para espantar os maus espíritos, mas quem era ele pra saber se há alguém bom ou mau nessa vida. Caso haja, ele teria outra certeza: não sou nem um nem outro. Serei um espírito? Por isso voltava à sala, filme no mudo, livro marcado com um santinho (nunca achava o marcador), lápis no quarto, sublinhar pra quê, tudo bem, tem que sublinhar, começa a ventar, tinha que chover, mas chover muito, sempre quando chovia estava na rua. E quando estava em casa ou nunca chovia ou não chovia desde então.





Com som os filmes passavam a chamar mais atenção – ainda bem que não era preciso lápis para assistir a um filme . Para aqueles, não. Começou a ouvir os diálogos. Ler as legendas. Aí, não sabia mais se tentava ou não ler ou não prestar tanta atenção nas vozes, porque tentar não ouvir é tarefa psicologicamente suspeita. Queria assistir a dois filmes ao mesmo tempo: um com olhos, outro com os ouvidos, e,quem sabe, fazer dessa estripulia uma terceira forma de ver o que ainda não via. Pois bem, lia e escutava, escutava e lia, aí as plantas lhe chamavam lá fora, a carranca passou a reclamar dos maus espíritos, mas na verdade eram morcegos, e o personagem do livro surge como relâmpago, por isso voltou a lembrar dos ratos, dos livros que leu neste ano, nos que não leu e vai ler, nos que não leu e não vai ler, mas leria se desse tempo, e dos – finalmente – os que quer ler e vai ler. Mesmo que não dê mais tempo.




Infringia-lhe a consciência lembrar dos erros que cometeu, muito menos dos que pensou em cometer. Tinha a mente diabolicamente atrevida, mas, justo por esse motivo, entendia que pensar e escrever são refúgios do espírito, e por isso também da carne, então soube ali que a razão é a cautela de quem ama. Por isso costumava remediar-se a torto e a direito. E passou a seguir a dieta do camaleão: comer ar recheado de promessas. O resto era silêncio.




Lá fora ainda chovia forte, ventos esbravejando sussurros sem muito significado, céu escuro cor de chumbo, livros empoeirados, roupas velhas, revistas antigas, fotos reencontradas, cartas perdidas, outras achadas, guardanapos, credenciais, discos arranhados. A sala era uma mistura de brechó e fim de festa em boate dos anos 70, principalmente por conta da música que estava tocando no som, um trilha meio Tim Maia, Simonal, James Brown e Michael Jackson. E o Biggie Smalls conseguiria dizer todo esse parágrafo de uma forma engraçada, rimando todos os sobrenomes, e ainda, tinha certeza, faria graça por todos já estarem mortos. Menos no coração – corrigiu-se a tempo.




Inventou uma desculpa qualquer para distrair a consciência. Decidiu que a próxima música teria que ser ouvida no volume máximo. Mas próxima não havia, já era a última do disco, então percebeu que ao aumentar o som já se ouvia a música aos berros, tanto ele quanto os vizinhos: isso sim afastaria os maus espíritos. Estendeu a mão na pilha de livros que já tinha se esparramado junto com o vinho pelo carpete e sacou o primeiro que a mão bêbada permitiu. Equilibrou-se num impulso. Estava sem os óculos de leitura, mas não viu problema, julgou que era mais justo se não enxergasse as letras do título que pescaria no chão da sala. Mergulhou com olhos fechados em todos os meses que se passaram no ano, todos os anos que se passaram no mês, entendeu que tinha que escrever, escreveu o que já pensava ter entendido.




Então apertou os olhos e leu as palavras que havia escolhido a esmo num dos livros empoeirados da superfície acarpetada. Por um momento chegou a achar que lhe haviam lhe aprontado alguma, mas como não acredita em coincidências tornou a reler a peça que o destino, este sim, lhe havia pregado:




“Pensando bem: quem não é um acaso na vida? Quanto a mim, só me livro de ser apenas um acaso porque escrevo, o que é um ato, que é um fato.”





E passou a escrever a vida em versos sem rima.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Entreatos - 3ª parte: O (re)encontro

Regressou do descanso e lhe trouxe um presente. Era precavida, por isso explicou que era apenas uma lembrança, que não se empolgasse, que não se animasse tanto com a surpresa. Ele sorriu sem que ela visse. Esperou um pouco e continuou a falar sobre onde esteve, o que fez e o que faria depois do retorno. Ela gostava de lhe contar sobre si. A distância ensinou-lhes a se admirarem e se admitirem sem pressa. Entrelaçaram-se em diálogos diários, interpretados pelas pausas das respirações, pelos entreatos dos suspiros, pelos sorrisos e cigarros, cafés intermináveis e esfumaçados pela quentura do copo e do corpo, saboreavam-se em pequenos goles: se tinham.






Saíram pela primeira vez juntos. Contrariando o regra dos encontros ( que não era “date” nem rendez-vous) foi ela que lhe buscou em casa. Ele gostou daquilo, verdade que foi dele a sugestão, já que foi ela quem insistiu em ir no próprio carro. Fez da insistência dela uma aliada, porque ela antes lhe havia desconsertado quando lhe avisou que a razão do jantar (que não era date nem rendez-vous, como se sabe) haveria de ser só jantar. Emparelharam-se novamente portanto – assim como a emoção e a razão.





Deixaram o carro com o manobrista. Era uma terça-feira fantasiada de sexta. Caminharam em direção ao restaurante, ele na frente, ela ia devagar, pairando o chão, em movimentos tênues e graciosos, delicadamente direcionados aos passos dele, que iam retos e firmes, largos, mas determinados. Pediu a mesa da varanda, aquela mais próxima à janela de vidro, a da vista bonita, mas também não haveria problema caso não a pudesse ter, outra vista haveria de ser ainda mais bela, a dos olhos que fitavam agora os seus. Quase sem medo. Era no olhar dela que ele percebia sua entrega. Era nos olhos dele que ela entendia sua fraqueza, sua insegurança e seu interesse: se reencontravam.





Ela já havia estado lá em outra ocasião, ele também, mas era como se lá estivessem pela primeira vez, assim como tiveram a impressão de que nunca haviam vivenciado até então - apesar de saberem que já tivessem vivido - um dos maiores entreatos da vida, o da paixão. Estudavam-se através de pequenos movimentos, no gestual dos talheres e copos, da maneira como seguravam o cardápio, da forma como não se procuravam mais nos olhos, e sim nos pratos, nas bebidas, nos gostos. Percorriam com olhares desinteressadamente curiosos todo o salão com mesas redondas e quadradas, fizeram graça ao perceberem que eram os mais jovens do restaurante, talvez uns dos poucos que, de fato, moravam na cidade, mas continuaram a falar sobre filmes enquanto ela disfarçava a fome com o couvert: pãezinhos e torradas numa cesta prateada. Gostavam de alecrim.





Pediu que trouxessem o vinho. A uva deveria ser a preferida dela. Ele sabia. Lembrava bem do gosto. De maneira que, mesmo com a demora do serviço, sorveu lentamente o primeiro gole, saboreando o gosto seco – e não podia ser muito frutado- com as papilas sensíveis de sua língua ansiosa. Agradeceu e mandou que servissem, enquanto ela sorria para brindarem ao reencontro: se interessavam.





Depois de escolherem o que comeriam , a demora não lhe fizeram pedir pratos diferentes, quantos risotos há por aí, continuaram enumerar temas variados, chegaram a pensar que tinham um outro cardápio na mesa, o de assuntos, e apesar de viverem em mundos completamente diferentes, quase opostos, se descobriam em coincidências curiosas, em interesses parecidos, em curiosidades interessadas. Ele reparava no modo em que ela retirava a taça da mesa e a levava em direção à boca, quando seus lábios desencontravam-se lentamente e da borda do cristal deslizava lentamente o líquido encorpado cor de rubi. Naquele instante ele parava de ouvir as vozes cantaroladas pelos bêbados das outras mesas, o chacoalhar estridente dos talheres, e passava a ouvir o silêncio da espera e a despedida da solidão. Não podiam prometer sentimentos, como diria Quintana, porque são como pássaros em voo. Mas se prometessem atos, seriam pássaros engaiolados. Talvez o poeta tivesse mesmo razão, até aí, quem sabe, mas haveriam de concordar ainda mais com outro verso: somos donos de nossos atos, mas não donos dos nossos sentimentos.





Pediram a conta. Ela foi ao banheiro. Ele foi buscar o carro. Encontraram-se e foram até outro bar. Meia-garrafa. Uva preferida dela. Ele sabia. Lugar conhecido deles. Sentaram-se, enquanto todos estavam de pé. Não eram tão velhos quanto os do restaurante, mas também não eram da cidade. A música alta impossibilitava qualquer tipo de conversa não fosse a labial, mas era assim que ele mais gostava - e ela também. Ele, porque gostava de acompanhar o desenho da boca dela, com o traço delicado, movimento tênue, sempre com batom irretocável. Ela gostava da música alta porque não podia mais ouvi-lo tão bem – ele falava muito – mas adorava vê-lo gesticular, levantar os ombros, abaixá-los, fazer caras e bocas, interjeições faciais. Ele também aproveitava o barulho para fazer uma pergunta qualquer e ter que repeti-la ao pé do ouvido, apenas para chegar mais perto, sentir seu perfume e procurar com a boca o espaço entre o rosto e ouvido, passando antes o nariz na altura dos lábios dela para sentir sua respiração ofegante, mas contida.





Trocaram de mesa e sentaram lá fora.





Continuaram a beber. Fumaram alguns cigarros. Ele fumava os dela e ela os dele, mas não fazia diferença, a marca era a mesma, ele havia comprado porque tinha gostado do nome e seus significados. Riam de tudo, dos assuntos que surgiam novamente, de outros que jamais haviam sequer tocado nem em outros tempos, riram mais ainda quando se encontraram com alguns amigos bêbados, dele, é claro, depois riram de tudo que haviam rido até ali e pararam para respirar outros ares, que não fossem nem de date- nem rendez-vous.





Voltaram para o carro ainda ouvindo o som das risadas. Talvez elas ainda existissem dentro dos sorrisos silenciosos que os guiaram até a casa dele. Pararam em frente, no mesmo lugar onde haviam parado semanas atrás. Despediram-se, mas ele não desceu. Despediram-se, mas ninguém disse tchau. Despediram-se, mas não queriam se despedir. Cruzaram os rostos e ele lhe buscou a boca com sua boca. Ela prendeu a respiração, porque precisava de outros ares. Recuou. Reencontram-se no silêncio da despedida outro verso de Quintana: somos culpados pelo que fazemos, mas não somos culpados pelo que sentimos. Então fizeram das bocas taças.





E afogaram-se num beijo sabor de rubi.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Entreatos - 2ª parte: O silêncio

A música que nunca mais tinha ouvido começou a tocar no rádio. Rapidamente, quase num sobressalto, aumentou o volume para relembrar a letra e tentar adaptá-la ao que estava vivendo até ali. Depois de cantar errado os primeiros versos, emparelharam-se, emoção e razão, não só na melodia, mas também nos trilhos da saudade. Sim, percorria outros trechos da memória para reencontrá-la: sentia sua falta. Não sabia mais o nome da canção, de modo que foi pesquisar com amigos desconversando a razão da procura, improvisando uma desculpa sem ensaio. Soube então, assim, que já tinha gravada a música num disco antigo, por isso foi ouvi-la de novo, não a canção, mas a voz dela nas entrelinhas dos acordes. Porém ficava irritado consigo quando aumentava o som e, em vez de contracenar com a solidão, se distraía com o rosto dela ao surgir como relâmpagos nas acomodações de sua lembrança. Não sabia se preferia controlar o que sentia ou desgovernar o que pensava: decidiu repetir a música. Outra vez.




À medida que o tempo não passava, tinha impressão que seus pensamentos estacionavam em vagas lembranças. Procurava na madrugada outros trechos da primeira conversa e da última impressão para dialogar consigo sobre o silêncio do sentimento desconhecido. Talvez por essa razão não importava para onde seguiria sua ansiedade, porque a pressa em não adivinhar o que viria lhe proporcionava sorrisos desencontrados: achava graça disso tudo também.





Voltou para casa e adormeceu logo. Antes de virar-se, porque costumava dormir cedo, sucumbiu à tentação da dúvida e perguntou-se se o que havia acabado de acontecer aconteceria de novo. E caso acontecesse, se tornaria a se repetir. Riu mais uma vez e, mesmo estando em casa, e em seu quarto, olhou para os lados para certificar-se que ninguém estaria a observá-la – além de si mesma. Costumava fiscalizar-se. Também fechou os olhos, mas não ouviu nenhuma música que a fizesse lembrar dele, como não tinha certeza se alguma um dia o faria. Mas não era esse o problema, uma haveria de fazer: a pressa não lhe fazia companhia. Percebia que ele lhe buscava a face com seus lábios, impossível não notar, mas a precaução lhe advertia sobre os desconhecidos, tanto o dono da boca quanto o que o levou a tal atrevimento, mas não tinha certeza do que sentia, não sabia o que viria pela frente, mesmo decretando por vencida a outra etapa, a que passou-se não faz muito tempo.




Talvez não demorasse tanto a voltar, mesmo que ele contasse pacientemente as trezentas e trinta e seis razões para que isso não tardasse a acontecer. Essa etapa, sim, gostaria que passasse logo. Entendia em certos momentos o silêncio funciona como um dos principais entreatos da vida, o da solidão. Mas não se importava com a estiagem dos temporais, pela única razão que não se sentia só ao ficar sozinho, pois a luz daqueles relâmpagos lhe permitiam enxergá-la de outras maneiras, através de outros reflexos, mesmo durante todo o intervalo da distância entre a varanda e o sofá da sala: não demorou que o céu desabasse e se desfizesse em pequenos grãos de água.




Em outras palavras ela escrevia aos poucos, sob traços delicados, todo roteiro que seguiria em poucos dias. Caberia agora ao tempo e à distância recuperar o fôlego depois de prender a respiração - ao perceber-se pensando nele. Não sentia o que viria a sentir hoje, permitia apenas permitir-se, a maior transgressão do ser humano é poder pensar o que bem entender, e o melhor, revelar-se apenas quando achar conveniente. No entanto, para ele, não havia diferença entre ser conveniente e coerente – e lembrou Eça de Queiroz: tais virtudes nem sempre andam de mãos dadas.




Foi então que lembraram juntos, ao mesmo tempo, mas sem que soubessem – e nunca haveriam de saber - dos mesmos momentos. Estavam a mais de dez mil e trezentas lembranças um do outro. Lembraram que num dia beberam a mesma bebida, no outro comeram a mesma comida, e depois viriam a beber outra bebida, mas também a mesma, e assim se percebiam sem se verem, mas nunca saberiam que se encontraram nos silêncios, cada um no seu, aí que está, são como escalas, intervalos, como pausas, como aplausos. Então lembrariam também de Pessoa: o silêncio é a estrada antes da curva.




- Ai ai ai...

sábado, 28 de novembro de 2009

Entreatos - 1ª parte: A despedida

Certa vez saíram com amigos e foram jantar. A ideia inicial não era essa – nem sair nem jantar – mas por alguma razão como não haverá de haver outras, encontraram-se. O susto planejado foi substituído por uma entrega de olhares cansados de fingir, exaustos, mas não por não se procurarem, e sim por não se deixarem descobrir: por se obrigarem a desviar do destino, por adiar a etapa que estava por vir ou por não permitirem que outras ficassem para trás. Mas quando menos perceberam, estavam vivendo num dos mais longos entreatos da vida, o do amor.




Não adiantava dizer como se conheceram nem onde, mas a verdade é que parecia que isso não importava.
Era como se soubessem que, mesmo quando ainda não se conheciam, se bem que isso não alteraria nada, o momento iria chegar – nem cedo nem tarde. Tinham calma e educação irritantemente curiosas, se cruzavam sem se cumprimentar, ela com os olhos baixos, ele com os olhos firmes. Aí, ficavam dias sem se ver, outros sem se olhar, mas nos segundos em que se flagravam, curiosamente se armavam com assuntos improvisados, como também as palavras, assim como as interjeições. Surgiam na hora os sorrisos, armados e decorados, com pausas para que um ouvisse o outro, mesmo que não parassem para prestar atenção. Nenhum deles estava disposto a baixar - ou mesmo abrir- a guarda. Estavam, de fato, parados e em pé. Mas o coração desobedecia a ordem, sorte que a aceleração da alma também é involuntária, e rapidamente se lembrariam daquele dito popular: “quem corre com gosto nunca se cansa”. Isso lhe interessava, porque além de tudo era ansioso, e toda vez que se despediam ele desconfiava – e quase decretava – que ela não lhe percebia como ele a percebia.





Tinha medo que estivesse, quando lhe permitia, sendo incoveniente, ao procurar encostar seus lábios no rosto dela quando despediam-se. Não arriscava tentar, ficava tenso, e quando se deparavam e paravam para o cumprimento, apenas repousavam uma face sobre a outra naquele movimento cruzado dos rostos. Disfarçavam bem. Mas empurrado pela velocidade do coração, ao irem embora, ele esperava beijar-lhe a maçã do rosto, mas ela, fiel à sua timidez e ao nervosismo, mesmo desnorteada pelo sumiço da calma, lhe buscava a face com a sua, sem dar chance que as bocas pudessem tocar os rostos. Ao virar-se ela ria baixo antes de levar a palma da mão à boca, para que supostamente ele não a ouvisse. Mas ele ouvia.




Enfim, sentaram-se na mesa e coincidentemente sentaram um ao lado do outro. Coincidentemente tinham a mesma profissão e, claro, coincidentemente, pediram a mesma bebida. Se bem que isso foi depois que ela decidiu trocar o pedido, quando ouviu o garçom repetir o nome do drinque que ele havia escolhido. A mesa estava animada, as conversas pareciam trocar de lugar, ora com um par de amigos ora com outro, os assuntos também cada hora frequentavam bocas diferentes, na velocidade intervalada do coração, mas eram os mesmos amigos, os mesmos drinques, os mesmos sustos, mas outros olhares: outras pessoas.




Todos desceram para fumar. Depois de respirarem outros ares, sentaram-se novamente nos mesmos lugares. Mais uma rodada de bebidas, mais uma de conversas. Mais risadas, menos nervosismo, menos timidez e menos cerimônia. Quase se esqueceram que não se conheciam tão bem, já tinham alcançado um grau de intimidade quase que instantânea e – diria ele – profética. Apesar de não serem nada parecidos, concordavam mais do que discordavam no que dizia respeito à vida e ao amor, mas o negócio é que não ficaram apenas encantados, não se apaixonaram ali, não. Tinham se interessado um pelo outro, e isto, sim, bastava, porque eram transparentes quando eram invisíveis. Era assim que se viam. Passaram a se acompanhar a partir dali.




Saíram do bar, meio a contra-gosto, mas depois do apagar das luzes, do chão encharcado com espuma e água sanitária e da conversa dos cozinheiros em voz alta, o garçom com a gravata borboleta mais frouxa trouxe a conta. Decidiram ir embora por livre e espontânea pressão.Dividiram a conta e rumariam a outro lugar, não fosse um dos amigos querer ir pra casa. Como era ela quem dirigia àquela noite, ele estava no banco de trás, aproveitando a carona, decidiu-se que iriam para onde que grupo quisesse . Após deixarem em casa o amigo bêbado, percorreram algumas ruas de Ipanema e Leblon, mas os lugares para saideira ou estavam muito cheios ou muito fechados. Era tarde para todos, menos para eles.




Passou para o banco da frente ainda eufórico por dentro, porque não adivinharia – mas suspeitaria - que seria o último a ser deixado. Não falaram nada, apenas coisas corriqueiras, no curto trajeto da casa da última amiga, ligeiramente embriagada, até a casa dele. Depois de apontar o prédio onde mora, ela parou o carro. Ligou o pisca-alerta, comentaram como foi bom se conhecerem melhor, não tiveram que inventar motivos para sorrir, não precisaram arquitetar interjeições, como também não poderiam deixar de se enxergar, mesmo invisíveis – e mais transparentes. Se encontrariam dois dias depois, numa festa de amigos.




Despediram-se.




Caminhou até a portaria e conseguiu lembrar de toda a noite, menos de como haviam se conhecido, ou quando tinham se visto pela primeira vez, mas também isso não importava, um dia chegaria o dia, o momento iria acontecer: descobriram-se pois. Esperou que ela fosse embora, mas o carro permanecia parado com os faróis acesos. Ele estranhou e foi até lá. Ela abriu a porta do carona e perguntou se ele não iria pra casa, estava esperando - era muito educada - que entrasse para, aí sim, ir embora. Ele disse que estava fazendo o mesmo, estava esperando que ela saísse com o carro para que, aí sim, ele entrasse e subisse pra casa. Riram de novo, examinaram-se e despediram-se. Novamente.





E chegou em casa feliz por trazer nos lábios o gosto do rosto dela.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Lições

“Rio, 24 de agosto de 1999


Bruno,

Eu me lembro bem das nossas tardes de domingo, no Maraca, torcendo pelo Vasco. Eu todo orgulhoso do filho pequeno, esperto e bonito que um dia pisou o gramado e ficou ao lado de ídolos e de anônimos. Eu que batia pelada na geral, lá embaixo, e ficava na ponta dos pés para ver o jogo. Tinha a sua idade. E pensava assim: “um dia vou assistir lá de cima perto de gente famosa”. E aconteceu, não por acaso. Estudei. Valeu! Quantos jogos eu assisti com você lá do alto, como no samba que Paulinho da Viola fez em homenagem à Mangueira: “vista assim do alto mais parece um céu no chão... Sei lá, não sei não...”


Pois é, agora no chão, não sei, não! Nessa idade, das definições, afirmações, do que eu posso tudo, sou o melhor e tal e coisa... e tá, tá, tá. O vocabulário não cabe na boca, são tantas “paradas”, tantas coisas “iradas”, que todo cuidado é pouco. Afinal, felicidade não tem preço. E parada errada custa caro. Tá certo, faz parte da vida. Mas de uma parte da vida que não pode ir para o lixo. Eu também fiz “parada” errada nos tempos de escola. Fui suspenso, matei aula, mas nunca deixei que a peteca caísse. Você não vai deixar, é claro. Confio em você, aliás, ainda confio.


Achava uma sacanagem com o meu pai e com a minha mãe. Eles sempre sonharam, com tantos filhos, que um deles se desse bem na vida. Pelo menos um. Eu me dei, que merda, né? Fazendo a conta no final do mês para ver se o dinheiro vai dar para pagar a ginástica (a sua), um ticket, um “galo” prá você. Mas o pagamento do colégio, é de Lei. Podia estar na pior, naquela vidinha sem sabor, sem aventura, sem tesão. Seu Argemiro nunca tinha dinheiro. Pagava colégio, tinha dez bocas para comer e às vezes aparecia muito mais aos domingos. Dia de pernil assado e salada de maionese. Todo mundo ia na aba. Ele dizia: “um prato de comida a gente não nega”. E não nega mesmo.


Mas a gente precisa aprender a dizer não. Eu não sei dizer. Eu só quero que você, - no banco da escola ou na esquina da vida -, não vacile, não deixe se influenciar, não deixe ninguém “fazer” a sua cabeça. E corra atrás. Hoje tá mais fácil pra você, mano. Tem dinheiro da mesada, tem festa, tem menina bonita pra tirar onda e saber ficar na crista... da onda. Meio caminho andado para ser alguém na... vida. Esse alguém que hoje o seu pai se orgulha de ser.


Eu te amo”





* Essa carta me foi escrita há dez anos, quando tinha acabado de fazer dezessete. E foi reencontrada depois de tempos escondida numa gaveta do meu antigo quarto, na casa de minha mãe. Uma surpresa. Era a fase da vida onde estava muito deslumbrado, aprontando na escola, com suspensões, reuniões de pais, mau desempenho nas notas. Depois de passar por bons colégios, estudava numa escola mediana e, mesmo assim, andava mal das pernas. Não queria saber de nada. Meu pai, da melhor maneira que um pai pode se manifestar nessas horas, me deu um pito por escrito, uma baita bronca, um documento da vida, uma lição: um presente.

E como hoje é seu aniversário, pai, divido esse presente contigo. É pra você, pra minha mãe – e pra mim - que tento ser um homem melhor, de caráter, que tenho certeza que você se orgulha de ver, de onde você estiver.

Obrigado por me segurar quando eu mais precisei, e por não me deixar derrapar na mais importante curva da vida, que são as pistas escorregadias da adolescência e da juventude. Uma estrada tortuosa, eu sei – mas não sabia. Parabéns, pai. E obrigado por estar comigo.

Eu te amo,


Bruno