quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Entreatos - 2ª parte: O silêncio

A música que nunca mais tinha ouvido começou a tocar no rádio. Rapidamente, quase num sobressalto, aumentou o volume para relembrar a letra e tentar adaptá-la ao que estava vivendo até ali. Depois de cantar errado os primeiros versos, emparelharam-se, emoção e razão, não só na melodia, mas também nos trilhos da saudade. Sim, percorria outros trechos da memória para reencontrá-la: sentia sua falta. Não sabia mais o nome da canção, de modo que foi pesquisar com amigos desconversando a razão da procura, improvisando uma desculpa sem ensaio. Soube então, assim, que já tinha gravada a música num disco antigo, por isso foi ouvi-la de novo, não a canção, mas a voz dela nas entrelinhas dos acordes. Porém ficava irritado consigo quando aumentava o som e, em vez de contracenar com a solidão, se distraía com o rosto dela ao surgir como relâmpagos nas acomodações de sua lembrança. Não sabia se preferia controlar o que sentia ou desgovernar o que pensava: decidiu repetir a música. Outra vez.




À medida que o tempo não passava, tinha impressão que seus pensamentos estacionavam em vagas lembranças. Procurava na madrugada outros trechos da primeira conversa e da última impressão para dialogar consigo sobre o silêncio do sentimento desconhecido. Talvez por essa razão não importava para onde seguiria sua ansiedade, porque a pressa em não adivinhar o que viria lhe proporcionava sorrisos desencontrados: achava graça disso tudo também.





Voltou para casa e adormeceu logo. Antes de virar-se, porque costumava dormir cedo, sucumbiu à tentação da dúvida e perguntou-se se o que havia acabado de acontecer aconteceria de novo. E caso acontecesse, se tornaria a se repetir. Riu mais uma vez e, mesmo estando em casa, e em seu quarto, olhou para os lados para certificar-se que ninguém estaria a observá-la – além de si mesma. Costumava fiscalizar-se. Também fechou os olhos, mas não ouviu nenhuma música que a fizesse lembrar dele, como não tinha certeza se alguma um dia o faria. Mas não era esse o problema, uma haveria de fazer: a pressa não lhe fazia companhia. Percebia que ele lhe buscava a face com seus lábios, impossível não notar, mas a precaução lhe advertia sobre os desconhecidos, tanto o dono da boca quanto o que o levou a tal atrevimento, mas não tinha certeza do que sentia, não sabia o que viria pela frente, mesmo decretando por vencida a outra etapa, a que passou-se não faz muito tempo.




Talvez não demorasse tanto a voltar, mesmo que ele contasse pacientemente as trezentas e trinta e seis razões para que isso não tardasse a acontecer. Essa etapa, sim, gostaria que passasse logo. Entendia em certos momentos o silêncio funciona como um dos principais entreatos da vida, o da solidão. Mas não se importava com a estiagem dos temporais, pela única razão que não se sentia só ao ficar sozinho, pois a luz daqueles relâmpagos lhe permitiam enxergá-la de outras maneiras, através de outros reflexos, mesmo durante todo o intervalo da distância entre a varanda e o sofá da sala: não demorou que o céu desabasse e se desfizesse em pequenos grãos de água.




Em outras palavras ela escrevia aos poucos, sob traços delicados, todo roteiro que seguiria em poucos dias. Caberia agora ao tempo e à distância recuperar o fôlego depois de prender a respiração - ao perceber-se pensando nele. Não sentia o que viria a sentir hoje, permitia apenas permitir-se, a maior transgressão do ser humano é poder pensar o que bem entender, e o melhor, revelar-se apenas quando achar conveniente. No entanto, para ele, não havia diferença entre ser conveniente e coerente – e lembrou Eça de Queiroz: tais virtudes nem sempre andam de mãos dadas.




Foi então que lembraram juntos, ao mesmo tempo, mas sem que soubessem – e nunca haveriam de saber - dos mesmos momentos. Estavam a mais de dez mil e trezentas lembranças um do outro. Lembraram que num dia beberam a mesma bebida, no outro comeram a mesma comida, e depois viriam a beber outra bebida, mas também a mesma, e assim se percebiam sem se verem, mas nunca saberiam que se encontraram nos silêncios, cada um no seu, aí que está, são como escalas, intervalos, como pausas, como aplausos. Então lembrariam também de Pessoa: o silêncio é a estrada antes da curva.




- Ai ai ai...

sábado, 28 de novembro de 2009

Entreatos - 1ª parte: A despedida

Certa vez saíram com amigos e foram jantar. A ideia inicial não era essa – nem sair nem jantar – mas por alguma razão como não haverá de haver outras, encontraram-se. O susto planejado foi substituído por uma entrega de olhares cansados de fingir, exaustos, mas não por não se procurarem, e sim por não se deixarem descobrir: por se obrigarem a desviar do destino, por adiar a etapa que estava por vir ou por não permitirem que outras ficassem para trás. Mas quando menos perceberam, estavam vivendo num dos mais longos entreatos da vida, o do amor.




Não adiantava dizer como se conheceram nem onde, mas a verdade é que parecia que isso não importava.
Era como se soubessem que, mesmo quando ainda não se conheciam, se bem que isso não alteraria nada, o momento iria chegar – nem cedo nem tarde. Tinham calma e educação irritantemente curiosas, se cruzavam sem se cumprimentar, ela com os olhos baixos, ele com os olhos firmes. Aí, ficavam dias sem se ver, outros sem se olhar, mas nos segundos em que se flagravam, curiosamente se armavam com assuntos improvisados, como também as palavras, assim como as interjeições. Surgiam na hora os sorrisos, armados e decorados, com pausas para que um ouvisse o outro, mesmo que não parassem para prestar atenção. Nenhum deles estava disposto a baixar - ou mesmo abrir- a guarda. Estavam, de fato, parados e em pé. Mas o coração desobedecia a ordem, sorte que a aceleração da alma também é involuntária, e rapidamente se lembrariam daquele dito popular: “quem corre com gosto nunca se cansa”. Isso lhe interessava, porque além de tudo era ansioso, e toda vez que se despediam ele desconfiava – e quase decretava – que ela não lhe percebia como ele a percebia.





Tinha medo que estivesse, quando lhe permitia, sendo incoveniente, ao procurar encostar seus lábios no rosto dela quando despediam-se. Não arriscava tentar, ficava tenso, e quando se deparavam e paravam para o cumprimento, apenas repousavam uma face sobre a outra naquele movimento cruzado dos rostos. Disfarçavam bem. Mas empurrado pela velocidade do coração, ao irem embora, ele esperava beijar-lhe a maçã do rosto, mas ela, fiel à sua timidez e ao nervosismo, mesmo desnorteada pelo sumiço da calma, lhe buscava a face com a sua, sem dar chance que as bocas pudessem tocar os rostos. Ao virar-se ela ria baixo antes de levar a palma da mão à boca, para que supostamente ele não a ouvisse. Mas ele ouvia.




Enfim, sentaram-se na mesa e coincidentemente sentaram um ao lado do outro. Coincidentemente tinham a mesma profissão e, claro, coincidentemente, pediram a mesma bebida. Se bem que isso foi depois que ela decidiu trocar o pedido, quando ouviu o garçom repetir o nome do drinque que ele havia escolhido. A mesa estava animada, as conversas pareciam trocar de lugar, ora com um par de amigos ora com outro, os assuntos também cada hora frequentavam bocas diferentes, na velocidade intervalada do coração, mas eram os mesmos amigos, os mesmos drinques, os mesmos sustos, mas outros olhares: outras pessoas.




Todos desceram para fumar. Depois de respirarem outros ares, sentaram-se novamente nos mesmos lugares. Mais uma rodada de bebidas, mais uma de conversas. Mais risadas, menos nervosismo, menos timidez e menos cerimônia. Quase se esqueceram que não se conheciam tão bem, já tinham alcançado um grau de intimidade quase que instantânea e – diria ele – profética. Apesar de não serem nada parecidos, concordavam mais do que discordavam no que dizia respeito à vida e ao amor, mas o negócio é que não ficaram apenas encantados, não se apaixonaram ali, não. Tinham se interessado um pelo outro, e isto, sim, bastava, porque eram transparentes quando eram invisíveis. Era assim que se viam. Passaram a se acompanhar a partir dali.




Saíram do bar, meio a contra-gosto, mas depois do apagar das luzes, do chão encharcado com espuma e água sanitária e da conversa dos cozinheiros em voz alta, o garçom com a gravata borboleta mais frouxa trouxe a conta. Decidiram ir embora por livre e espontânea pressão.Dividiram a conta e rumariam a outro lugar, não fosse um dos amigos querer ir pra casa. Como era ela quem dirigia àquela noite, ele estava no banco de trás, aproveitando a carona, decidiu-se que iriam para onde que grupo quisesse . Após deixarem em casa o amigo bêbado, percorreram algumas ruas de Ipanema e Leblon, mas os lugares para saideira ou estavam muito cheios ou muito fechados. Era tarde para todos, menos para eles.




Passou para o banco da frente ainda eufórico por dentro, porque não adivinharia – mas suspeitaria - que seria o último a ser deixado. Não falaram nada, apenas coisas corriqueiras, no curto trajeto da casa da última amiga, ligeiramente embriagada, até a casa dele. Depois de apontar o prédio onde mora, ela parou o carro. Ligou o pisca-alerta, comentaram como foi bom se conhecerem melhor, não tiveram que inventar motivos para sorrir, não precisaram arquitetar interjeições, como também não poderiam deixar de se enxergar, mesmo invisíveis – e mais transparentes. Se encontrariam dois dias depois, numa festa de amigos.




Despediram-se.




Caminhou até a portaria e conseguiu lembrar de toda a noite, menos de como haviam se conhecido, ou quando tinham se visto pela primeira vez, mas também isso não importava, um dia chegaria o dia, o momento iria acontecer: descobriram-se pois. Esperou que ela fosse embora, mas o carro permanecia parado com os faróis acesos. Ele estranhou e foi até lá. Ela abriu a porta do carona e perguntou se ele não iria pra casa, estava esperando - era muito educada - que entrasse para, aí sim, ir embora. Ele disse que estava fazendo o mesmo, estava esperando que ela saísse com o carro para que, aí sim, ele entrasse e subisse pra casa. Riram de novo, examinaram-se e despediram-se. Novamente.





E chegou em casa feliz por trazer nos lábios o gosto do rosto dela.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Lições

“Rio, 24 de agosto de 1999


Bruno,

Eu me lembro bem das nossas tardes de domingo, no Maraca, torcendo pelo Vasco. Eu todo orgulhoso do filho pequeno, esperto e bonito que um dia pisou o gramado e ficou ao lado de ídolos e de anônimos. Eu que batia pelada na geral, lá embaixo, e ficava na ponta dos pés para ver o jogo. Tinha a sua idade. E pensava assim: “um dia vou assistir lá de cima perto de gente famosa”. E aconteceu, não por acaso. Estudei. Valeu! Quantos jogos eu assisti com você lá do alto, como no samba que Paulinho da Viola fez em homenagem à Mangueira: “vista assim do alto mais parece um céu no chão... Sei lá, não sei não...”


Pois é, agora no chão, não sei, não! Nessa idade, das definições, afirmações, do que eu posso tudo, sou o melhor e tal e coisa... e tá, tá, tá. O vocabulário não cabe na boca, são tantas “paradas”, tantas coisas “iradas”, que todo cuidado é pouco. Afinal, felicidade não tem preço. E parada errada custa caro. Tá certo, faz parte da vida. Mas de uma parte da vida que não pode ir para o lixo. Eu também fiz “parada” errada nos tempos de escola. Fui suspenso, matei aula, mas nunca deixei que a peteca caísse. Você não vai deixar, é claro. Confio em você, aliás, ainda confio.


Achava uma sacanagem com o meu pai e com a minha mãe. Eles sempre sonharam, com tantos filhos, que um deles se desse bem na vida. Pelo menos um. Eu me dei, que merda, né? Fazendo a conta no final do mês para ver se o dinheiro vai dar para pagar a ginástica (a sua), um ticket, um “galo” prá você. Mas o pagamento do colégio, é de Lei. Podia estar na pior, naquela vidinha sem sabor, sem aventura, sem tesão. Seu Argemiro nunca tinha dinheiro. Pagava colégio, tinha dez bocas para comer e às vezes aparecia muito mais aos domingos. Dia de pernil assado e salada de maionese. Todo mundo ia na aba. Ele dizia: “um prato de comida a gente não nega”. E não nega mesmo.


Mas a gente precisa aprender a dizer não. Eu não sei dizer. Eu só quero que você, - no banco da escola ou na esquina da vida -, não vacile, não deixe se influenciar, não deixe ninguém “fazer” a sua cabeça. E corra atrás. Hoje tá mais fácil pra você, mano. Tem dinheiro da mesada, tem festa, tem menina bonita pra tirar onda e saber ficar na crista... da onda. Meio caminho andado para ser alguém na... vida. Esse alguém que hoje o seu pai se orgulha de ser.


Eu te amo”





* Essa carta me foi escrita há dez anos, quando tinha acabado de fazer dezessete. E foi reencontrada depois de tempos escondida numa gaveta do meu antigo quarto, na casa de minha mãe. Uma surpresa. Era a fase da vida onde estava muito deslumbrado, aprontando na escola, com suspensões, reuniões de pais, mau desempenho nas notas. Depois de passar por bons colégios, estudava numa escola mediana e, mesmo assim, andava mal das pernas. Não queria saber de nada. Meu pai, da melhor maneira que um pai pode se manifestar nessas horas, me deu um pito por escrito, uma baita bronca, um documento da vida, uma lição: um presente.

E como hoje é seu aniversário, pai, divido esse presente contigo. É pra você, pra minha mãe – e pra mim - que tento ser um homem melhor, de caráter, que tenho certeza que você se orgulha de ver, de onde você estiver.

Obrigado por me segurar quando eu mais precisei, e por não me deixar derrapar na mais importante curva da vida, que são as pistas escorregadias da adolescência e da juventude. Uma estrada tortuosa, eu sei – mas não sabia. Parabéns, pai. E obrigado por estar comigo.

Eu te amo,


Bruno

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Escuridão de luzes

Era uma noite de calor, mesmo com os respingos daquele céu cinza, carregado com nuvens recheadas e aflitas. Ele teve que esperar mais um pouco dentro do carro, enquanto ela procurava sair da reunião o mais rápido possível. Recusou a carona que sempre lhe economizava a passagem do ônibus e despediu-se dos outros colegas. Saiu do escritório e esperou pelo elevador como quem espera uma resposta para a loucura que estava prestes a fazer. Desceu alguns andares e quando saiu à rua, abriu o guarda-chuva para proteger-se dos pingos grossos que lhe tentavam acertar a cabeça, mas também lhe serviu como esconderijo de quem suspeitasse de sua atitude, como se fosse se proteger dos olhares de alguém que soubesse para onde estava indo. E com quem se encontraria.




A chuva aumentava e ele esperava ansiosamente por ela. Era a primeira vez que sairiam juntos, depois de meses de paquera. Ninguém do escritório desconfiava, afinal, não se falavam durante o expediente, apenas se refugiavam um nos olhos do outro, quando se cruzavam pelos corredores do prédio, pelas escadas ou quando desviavam o olhar da tela do computador e se flagravam sem susto ao se depararem com a coincidência fabricada: se entendiam sem palavras proferidas, se completavam na escuridão do silêncio e na claridade da certeza. Sorriam por dentro, a cortinas fechadas: não queriam ensaios nem espetáculos. Não queriam aplausos. Trocavam cartas de amor mesmo sem nunca terem se visto do lado de fora da fantasia da rotina. Eram completamente encantados pelo que poderia acontecer e não pelo que ainda não tinha sido concebido nem consumado: o desejo velado inquietava alma e traía a carne, mas ela resistia enquanto ele insistia. Um novo temporal se aproximava.




Caminhou pela calçada, desviando das poças d´água, reparando com cuidado todo e qualquer carro que pudesse ser o dele, porque lhe havia dito o modelo e a cor. Respirava ofegante, mas não por ansiedade ou nervosismo, mas porque se lhe viesse o ar úmido nas vias respiratórias, talvez o oxigênio lhe resfrescasse não só a memória, mas também seu coração. Olhava por cima do ombro e antes que pudesse perceber que ele a percebia, por um momento quase desistiu do encontro. Mas ao compreender que os faróis dos outros carros também lhe incentivavam a seguir em frente, eis que ele surge e lhe chama pelo nome, e que nome lindo ela tinha, e, ao olhar para a direção da voz, a mesma voz lhe fisgou pelo ouvido do coração, que é a boca, e que boca ela tinha, desenhada com perfeição, os olhos castanhos escuros brilharam no breu das luzes: ele a puxou pela mão enquanto ela saltava de uma poça para outra. Foi então que deixou de se arrepender naquele instante. Era a primeira vez que se viam, à noite, fora do trabalho. Era a primeira vez que não sabiam mais onde estavam, mesmo sabendo que não pisariam mais no chão.




Tatearam-se com a curiosidade de criança. Não se beijaram, tamanha a vontade de se tocar. Acharam que naquele momento, o bonito mesmo, o que faria jus ao que sentiam, seria se admirarem, procurando disfarçar a euforia que transbordava na pele. Como o champanhe, a bebida preferida dela, sua pele também borbulhou quando tocaram as mãos desprentensiosamente de propósito, quando se esbarraram ao contar uma história, quando se estudaram ao discutir sobre os primeiros assuntos. Ele dirigia sem rumo. Talvez fosse essa a carona que ela quisesse.



Chegaram no bar e sentaram logo. Tinham que esperar um pouco, a casa estava cheia, mas, quem se importava, era assim que se conheceram, pelas coincidências, pelas peças pregadas pelo acaso. Gostavam assim. Pediram a primeira bebida, a única que beberia por toda noite, mas ele beberia um pouco mais. Conversaram sobre tudo, menos pela razão a qual estavam ali, era evidente, mas tudo que é óbvio não tem poesia. E eles gostavam tanto da poesia de seus corpos, de seus movimentos, e ele gostava como ela repousava a capirinha na mesa, enqunto ela achava curiosa a forma em que ele bebia a sua. Matavam a sede no copo e no tato: desarmavam-se meticulosamente.




O garçom apareceu e lhes avisou da mesa vaga. Sentaram-se novamente, acomodaram-se e olhavam o cardápio como se fosse um leque. Riram, mas dessa vez pra fora, porque lembraram que o menu lembrava a tela do computador, e flagraram, novamente sem surpresa, seus olhares mais curiosos um sobre o outro, sob o cardápio. Não queriam aperitivos.



Foi quando de repente a luz e outras luzes daquela noite oscilaram caprichosamente depois do segundo brinde. Breu total. Silêncio. Vozes e sussurros incompreensíveis vagavam pela cozinha e pelas mesas. Eles não chegaram a reparar, porque viviam um amor às cegas, às escuras, e quando trouxeram a vela avisando que o problema era na cidade inteira, eles fizeram pouco caso do transtorno, e trataram de procurar no reflexo da chama, a razão por estarem ali. Continuaram a conversa em meio ao caos, ele sorvendo mais um gole da bebida, ela matando outra sede, a da curiosidade. Seus olhos castanhos não desviaram mais da direção dos dele. Encontraram-se finalmente.



Mesmo sem palavras faladas, e sim as suspiradas, conversaram sobre literatura, sobre poesia, sobre amores, sobre paixões, desilusões e desventuras. Desvencilharam-se de outros apagões e de outros blecautes, por isso levantaram e rumaram em direção a outras luzes: beijaram-se com olhos fechados mesmo na escuridão, como se as pálpebras fossem cortinas, e puderam enxergar dentro de si o clarão da paixão desconversada.



Voltaram pra casa e percorreram sem pressa a cidade escura, apagada, adormecida: não sabiam se o asfalto se iluminava por causa do farol do carro ou pelo brilhos dos olhos. Tatearam-se mais uma vez como se tocariam muitas outras vezes com outras luzes: a da saudade e a do amor. Estavam cegos de si.



E não saberiam mais diferenciar a noite do dia.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Itinerários

Não lembro bem da origem de meus planos nem de meus sonhos, se bem que não vejo diferença entre esses termos, da mesma maneira como ainda acho complicado explicar o que sentimos logo depois de acordar de um sonho. Convenhamos, explicá-los já não é tarefa apenas para quem nasceu com tal virtude, Freud explica, mas o que me tira o sono é não saber sentir nem sentir depois o que sentiu-se ao sonhar. As sensações se esfarelam pelas lembranças, nunca é a mesma coisa. Flagro-me constantemente cochilando desperto, como faço agora, durante essa viagem de ônibus pela cidade. Gosto de pensar que as janelas desses caixotes metálicos roncadores são como gavetas da rua, a cidade vista daqui de dentro é um grande armário, mas estou do lado de cá nesse momento, as ruas mofadas de gente, empenadas pelo desgaste do asfalto, forradas de prédios e edifícios de toda ordem. Os muros e construções são cinturões de concreto que, concluo, mais parecem cercas imóveis de cimento, porém com aspecto humano. Observo uma ou outra pessoa do alto de uma floresta de espelhos, que é curioso, vejo também o reflexo do mar, há assim outras iguais, que também refletem todo desfile urbano pelo tapete de piche. Faz calor e por isso aceno para um senhor que caminha com dificuldade para adentrar o ônibus onde agora estou temporariamente moribundo, num estado de dormência mental, quase em transe: é contagiosamente irreversível. Me vi num mundo mendigo esmolando mudanças de espírito. Foi isso que vi do lado de dentro da rua.



Às vezes é preciso mudar. Tomar o primeiro ônibus sem destino, mas na hora certa. Subir os degraus, cumprimentar o motorista e sentar lá no último banco, como se o isolamento fosse uma forma de ir mais longe. Abro a janela, que corre com certa dificuldade no mesmo sentido do trajeto. Cotovelo direito apoiado no espaço aberto pelo vidro, rosto massageado pela brisa, olhos acompanhando o movimento das pessoas – e o dos carros. Da calçada, outros olhares me encaram duvidosos, talvez por saber que quem os observa é o mesmo rapaz da parada anterior. Mas a cada ponto de ônibus, a cada mudança de sinal, deixo de ser quem sou e me torno quem não sei. E me conheço cada vez menos a medida que o ônibus aumenta a velocidade. Gosto disso, porque, ora, não é assim a vida? Intensidade, freadas, colisões, paradas, acelerações, mudanças e movimento: o itinerário traçado pelo destino, o destino traçado pelo itinerário. Abrir caminhos.



Rezamos a cartilha do afastamento, estamos economicamente humanos e por isso acabamos nos distanciando de nós mesmos. Tomar o volante da vida, guiar seus instintos e frear equívocos – e não atropelá-los - talvez, desse modo, não há de se derrapar nas curvas e estradas de nossas decisões. Quando venta do lado de fora da vida, arrancam-se dos varais do tempo todos os planos manchados por nossos atos: um acordo de sonhos.



Assim, terminei por me libertar das correntes que eu mesmo havia criado. Depois de passar longa temporada no escuro, aprendi que meu corpo é meu meio de transporte. Que olhar com olhos é a melhor forma de não sonhar. Que a vida é um trajeto, que minha mente é uma gaveta do tempo. Faxinei a memória, lustrei as ideias e me desfiz de tudo que não prestava mais, como que meu sangue desinfetasse os ladrilhos da alma, como se meu destino estivesse mudando de itinerário. Escolhas são caminhos.



Sem ponto final.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

As provas de um vestibular

Quando voltou da prova, ainda nos pilotis da faculdade, estranhou que a maioria dos vestibulandos, quer dizer, todo e qualquer candidato, menos ele, tivesse em mãos o rascunho com as respostas. Mas, pera lá, não era só isso que o deixava aflito: os outros candidatos também seguravam o papel com as perguntas do exame, com exceção dele. Mas todos, aí tudo bem, ele lá estava, só entregaram - só poderiam - o cartão-resposta. E assim, iniciara-se o calvário de Fernando. Na verdade, no mesmo exame para o curso escolhido pelo rapaz, eram três provas diferentes, método escolhido pela banca para que ninguém colasse durante a realização do vestibular. Papéis rosas, amarelos ou azuis. Praticamente as mesmas questões, mudando ora a ordem em que se encontravam ora a forma como eram aplicadas. Fernando tinha esquecido do detalhe de que poderia conferir respostas com os colegas, ou, o mais importante, o gabarito que sairia no dia seguinte na internet. Tinha perdido a maladragem dos tempos de adolescente. Falta de prática, lamentou-se. Mas a pressa em ir embora e costume de jogar fora as provas, que herdou dos tempos de colégio, os traíram. Como saberia se tinha ido bem? De que maneira poderia ter alguma ideia de seu desempenho? Teria que esperar até março?


Isso aconteceu numa calorenta manhã de dezembro, um domingo, se a memória não me falha, e o Fernando tinha feito vestibular para uma faculdade tradicional do Rio, que fica na Gávea. O curso escolhido, entre os outros tantos que viria a iniciar também – mas não concluir – era Administração. Disse-me ele que tinha estudado um pouco, coisa e tal, “né, Brunão, o negócio é sair-se bem na redação.” É Fernando, é mais ou menos por aí...


Mas não. Ele não esperaria três meses. Ou melhor, ele nunca perdoaria tal falha que cometeu contra si. Anotar as respostas e jogar fora o papel onde estavam escritas, qual o quê, não haveria de ser, que distração, que falta de zelo, Fernando! Pois ele não fez por menos. Arriscou um sorriso largo e amarelado, pediu um cigarro, recusou o isqueiro, preferiu acender com a brasa da guimba da menina, mas teve que buscá-la no chão, a moça não tinha ouvido a tempo, sorriu de novo, resmungou algo imcompreensível, ninguém entendeu, ele repetiu, todos riram ainda sem entender. Virou-se, fingiu que viu alguém à sua direita, meio na diagonal, e acenou para o nada, como se sua loucura o tivesse puxando pelo braço em qualquer direção que fosse, mas que fosse para longe dali. Foi pra casa, esqueceu-se por um instante de tudo, como sempre faz, e foi à praia. Tinha onda, sabe como é, subiu o mar, tá batendo de leste, sudoeste, bróder, terral e açaí. Voltou e dormiu logo.


Na manhã seguinte, antes das sete, despertou num pulo. Esfregou os olhos com as mãos ansiosas da véspera. As mesmas que cometeram o suicídio pré-acadêmico. Vestiu uma bermuda. E só. Desceu à garagem, pegou a bicicleta e rumou em direção à universidade que carregava seus dois futuros, mas apenas um haveria de ser o seu, de fato. Pedalou como se a pressa fosse ajudá-lo. Os portões do prédio estavam fechados. Chamou o segurança e explicou que, “irmão, entenda meu lado, joguei meu futuro no lixo, entende? Não, se senhor jogou o seu também, não sei, que isso, não foi bem o que quis dizer, mas, por favor, no meu caso, ainda posso mudar isso. Calma, irmão, não, não, qual nada, não estou esfregando na cara que sou novo e o senhor, não, não, não lhe estou chamando de coroa. Tudo bem, por favor, preciso achar uma coisa que perdi. É jogo rápido, vou num pé e volto noutro. Posso deixar a bicicleta aqui? Tá certo, eu sei, eu me responsabilizo. Mas tá com cadeado, hein?” E passou pelas portas de ferro.


Entrou pelo estacionamento. Vestiu a camisa surrada que trazia enrolada no antebraço, de bermuda, sem chinelos. Cabelo dormido. Ao olhar pra trás, percebeu que o segurança da porta acenou para o colega que estava mais à frente de Fernando: “tá indo praí.” Disse o segundo segurança: “O que houve, amigo?” Fernando, de prima: “Irmão, pra onde vai o lixo?” “Como assim, rapaz?” devolveu desconfiado o funcionário. “O lixo, para onde vai todo o lixo dessa faculdade? O lixo de ontem, quero dizer?” – explicou num tom que pareceria mais deboche, não fosse o desespero. “Garoto, você tá de brincadeira? Tá de sacanagem comigo?” – vociferou o vigilante. “Antes fosse, irmão. Tô desesperado aqui. Preciso encontrar a minha prova.” – suplicou o nosso amigo.


Silêncio. Depois da gargalhada, o segurança sugeriu: “olha, vai naquele depósito ali e fala com o Tião. Ele é o cara do lixo aqui. Pede pra entrar lá.” “Pô, irmão, tirou onda! Você é o cara!" – agradeceu o rapaz.


- E você acha que vai encontrar aí? – irritou-se Tião depois de ser acordado pelos sussurros nada sutis de Fernando, quando o velho não despertava de maneira alguma com os assobios do rapaz. – "é muita porcaria, muita sujeira." - advertiu. “ Eu posso, irmão?” pediu educadamente aflito. “É contigo mesmo” - sentenciou o zelador. Resmungou alguma coisa, pigarrerou e recostou-se novamente. Antes de cochilar, lembrou: “o lixo fica todo no final desse corredor, naquela sala que não tem porta.” - falou Tião. “Pelo cheiro eu acho” - disse Fernando antes de rir da própria piada – ou desgraça, pensou melhor.


Passada a primeira hora, Tião foi bisbilhotar como estava a sorte de Fernando. O velho fedia à cachaça, e, devia ser, por isso que tinha o dom de sorrir mesmo mal humorado. O sorriso parecia rasgado na sua cara redonda e achatada. Olhou e o viu no meio daquela imundície, junto com restos de sanduíches e refrigerantes, embalagens de mostarda, refeições quase inteiras, copos plásticos, papel higiênico e um arco íris azul, rosa e amarelo. Fernando repetia: “Amarela, amarela, lembro que era amarela”. Tião não acreditava no que via. Consultou o relógio e viu que ainda era cedo, não, não podia estar de pileque ainda. Costumava a encher a cara mais tarde, mas, naquele momento, percebeu que nem mesmo a bebida poderia permitir instantes tão curiosos e estranhos como aquele. Estava se divertindo. “Toma, pegue.” Agradeceu Fernando: “Ô, irmão! Obrigado! Salvou!” – ajoelhou-se e beijou a mão do homem.


Depois de colocar as luvas de gari, Fernando passou mais quarenta minutos procurando a prova amarela com as respostas. Separou o maior número possível de papéis daquela cor, inclusive embalagens daquela loja de sanduíches, mas não teve sucesso. Não encontrou seu futuro ali. Foi pra casa chateado, mas conformado. Afinal, fez o possível e o impossível, e não diria apenas isso, mas também o improvável. Ou imprevisível?



Três meses depois, veio a boa nova. Fernando fora classificado. Ficou muito feliz, ligou para os amigos, foi pegar onda, viajou com os pais, pagou chope pra rapaziada e riu quando lembrou de tudo que fizera para saber daquele resultado. Disse que a cisma era porque pressentia o bom desempenho.


Mas foi numa tarde, durante uma festa de confraternização entre veteranos e calouros na faculdade, lotadíssima, todos bêbados, que Fernando aparece depois de beber todas e mais outras, zonzo de goró, e fixa os olhos no meio da multidão. Mal se equilibra em pé, e repara que o vulto à sua frente também, não. Esfrega com aquelas mesmas mãos ansiosas as pálpebras que teimavam em permanecer abaixadas. Riu e ficou sério.


Depois riu de novo, quando reconheceu, lá do outro lado, esvoaçando no ar, duas luvas de gari, cinzas e imundas, sacudidas por um velho bêbado e sorridente, mas mal humorado, que berrava:


- “Passou, hein?!?!?!”

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O sal da tarde

Todas as tardes se repetiriam naquele tempo. As manhãs nem sempre se pareciam umas com as outras, tampouco as noites. Mas a brisa vespertina, sempre acompanhada pelo cheiro da água salgada, nunca mudaria a direção, porque, mesmo com a mistura de aromas, era o perfume dele que a deixava mesmo desorientada. Talvez por isso gostasse de se banhar, nua, no mar cor de tangerina. Não que seu corpo ficasse colorido de saudade, muito menos de tristeza, mas gostava de se provocar, de se insinuar pra si. Era assim que entendia o reflexo do mesmo sol das mesmas tardes sobre aquele pedaço de oceano esquecido, onde anos antes tinha se despedido dele, antes que o navio zarpasse com destino à vida que não viveria com ela. Sempre o soube, mas até que a embarcação diminuísse de tamanho ao cruzar a linha do horizonte, pensou que, mesmo que repentinamente, mesmo que demorasse mais alguns minutos, ou até dias, ele poderia mudar de ideia durante uma tempestade, entre a oscilação das ondas, e regressar para seu peito: ela queria ser o seu lar.


Gostava de comparar a saudade com o sol. Começava quando amanhecia, a aurora rompendo a noite como a falta dele lhe rompia os olhos e o coração. Passada as primeiras horas da manhã, como os primeiros momentos em que se flagrava lembrando do passado, os raios de luz funcionavam como flechas douradas que, como as flechas da paixão, se suicidam ao se encontrarem no chão do amor, o solo fértil da vida: o coração.


Sobre o entardecer, confundia-se toda. Não sabia se ficava triste - porque a manhã não voltaria nunca mais. Mas verdade é que tinha mesmo saudade das manhãs. Porém não saberia dizer se estava feliz, porque esperava ansiosa pela noite, onde a saudade dói mais, é verdade, reconhecia, mas a solidão lhe ensinou que quem sofre pela manhã sente falta da escuridão.


Por esse motivo decidiu que, a partir de sua partida, a dele, todas as tardes seriam iguais. Seguiria o mesmo ritual, na esperança de que um dia ele olhe para trás e faça a manobra de meia-volta e retorne ao cais. Esperaria o tempo que fosse, porque as tardes se repetiriam desde então. E o calor insuportavelmente abafado de tantas tardes e lembranças, fazia com que ela tirasse a roupa e mergulhasse naquela água cor de laranja, porque foi a última vez que se entregou a ele. Tinha o cheiro dele impregnado na pele, mesmo depois de tantos anos, mesmo antes de avistá-lo desembarcando do navio para dentro de seu corpo. Achava que cada mergulho no mar fosse um lampejo da memória: nadava pela saudade e se afogava no próprio coração. Sentia na língua o sal de todas as tardes que se repetiriam sempre, mas que nunca terminariam. A vermelhidão do céu lembrava o último dia que se amaram e se viram, depois de se amarem antes de se virem. A praia era afastada de tudo, menos do passado.


O sol permanecia amarelo. Mas as todas as tardes seriam iguais. Ela costumava sentar no deque com as pernas pra fora, como se estivesse se preparando para patinar pelo espelho d´água, e repousava as mãos em palma, amparadas pelos braços que estavam apoiados no chão de madeira, esticados atrás da linha do ombro. Olhava sem rumo pelo rastro que ele deixou no mar. Vigiava o horizonte para que não perdesse quando ele surgisse ao fundo da memória ou viesse arrastado pelos ventos quentes da praia igual às tardes que sempre se repetiriam. Fazia isso todas as tardes desde que ele decidiu ir embora para nunca mais voltar. Quando o sol se punha, suspirava o mesmo lamento que se repetiria por todas as tardes e seguia para casa: anoitecia dentro e fora de seu coração. As manhãs nunca se pareceriam umas com as outras.


Por isso que todas as tardes seriam sempre iguais.