domingo, 1 de julho de 2012

Vulto


Escrever é algo parecido com sentir. Ao mesmo tempo que dá medo, também nos liberta. Acontece que, de tempos pra cá, tenho escrito pouco. Não tenho tido inspiração, as palavras se tornaram mais distantes, mal consigo rascunhar como fazia há alguns meses. De certa forma não é tão desesperador, penso que o homem se humaniza na falha, mas me preocupa.

Sempre imagino como seria o primeiro capítulo de meu livro, caso quisesse, de fato, escrevê-lo. As primeiras linhas... É claro que gostaria de saber como seria o livro todo, página a página, mas o capítulo inicial é primordial. Também tenho curiosidade pela vida, mas talvez menos. Na verdade me intriga o fato de ainda estar curioso – e não ansioso – para viver. Ainda não escrevi nada.


Às vezes me sinto ignorante. Não critico minhas escolhas, tampouco me arrependo delas, no entanto reflito constantemente sobre o que fiz a partir do que escolhi. Sim, optei por um caminho e não pelo outro, que ótimo, como tenho coragem e perseverança, mas e aí? Para se ter alguma coisa na vida é preciso abrir mão de outra. Não basta decidir. O distanciamento entre o que penso e o que sinto, meus bens mais preciosos, sempre é encerrado na medida do tempo que leva para medi-lo. Levanto acampamento e sigo viagem. Não existe silêncio. 


Eu me burlo. Se penso, posso agir ou não. Valho-me dessa ponte levadiça. Mas, se sinto, sinto. Não há escolha, porém decisões. 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Paralelos


- Ou a gente vai ser muito feliz ou a gente vai ser pouco feliz. Mas, infeliz, não!


- Por que você acha isso?


- Porque o erro das pessoas é querer a máxima felicidade, a suprema, absoluta.  Ela não existe. Qual a diferença entre ser muito feliz e pouco feliz? A felicidade tem medida? O pouco feliz é mais feliz que o muito feliz.  Acho que ser infeliz é querer a perfeição.  Isso não é querer sentir, é pensar em sentir. Como se racionalizar fosse uma saída e não uma fuga.


- E você me acha racional?!


- Porra, muito.


 - Sério?! Lógico que não! Eu sou a mais passional que tem.  Quando me entrego, mergulho de cabeça, não quero nem saber.  Me envolvo, entende? Tenho meus rompantes, explodo, me apaixono, brigo, choro. ..


- Só alguém racional se define tão bem...


- Caraca! Você me acha mesmo, né?!


- Acho, mas, porra, eu também sou. Aí, acho que é menos preocupante. Quer dizer, só quem vive abraçado à razão usa a expressão “menos preocupante” para definir uma característica comum. Não digo afinidade, mas o defeito. Porque as pessoas acham que ser racional é ser frio e ser passional é ser burro, né?


- É, acho que é isso mesmo! Aí, vem alguém dizer que tem que ter um equilíbrio e tal, não pesar pra nenhum lado... Impossível! Querer calcular essa medida! Quer alguma coisa mais racional que essa?!


- Então por que estamos aqui?


- Ué, não sei...  A gente veio tomar um chope, conversar. Ou você diz no sentido, tipo, sei lá, filosófico?


- Não, digo no físico mesmo.


- Bom, a gente se conheceu, foi tudo muito rápido. Mas tipo, quando a gente fala assim “foi tudo muito rápido” parece que temos uma história, um caso. E pô, você sabe, nunca rolou nada. Mas eu não sei, gosto de estar com você.


- Eu também gosto de você, sabe? Foi de repente. Se vê todo dia, nesse horário. Mesma ponto, mesmo trajeto, mesmo destino...


- Mó viagem isso, né?


- Acho isso foda... Essas coincidências, amigos em comum dos mais estranhos lugares e épocas, aquela história do ônibus, você estudou onde eu vou estudar... Sei lá, isso assusta, né? Não um susto de medo, mas de alerta.


- Alerta que pode não dar certo?




- Não, alerta de que pode dar certo...


- Aí, você tá racionalizando de novo! Viu?! E depois diz que não racionaliza.


- Mas quem fiscaliza também é.


- Tá certo, é verdade. Mas eu não nego. Bom, você tem que ir, né?


- Ih, caramba, vou chegar MUITO atrasada! Viajei... e olha lá, viu?! Acabou de passar o meu ônibus! 
Tenho que correr pro ponto!


- Posso ir com você até lá. (eu deveria surpreendê-la)


- Tá bem... Mas ir até onde?!

- Um lugar onde a pressa não tenha razão...



terça-feira, 1 de maio de 2012

Dialética

mãos
sentidos
estilhaço
a mesma rua
nunca
é
a 
mesma
rua
a
atravessar

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Percurso

gargalo
passagem
pela 
superfície
sede
sem copo
endereço 
sem número
da 
palavra 
seca 
sem 
leme

quarta-feira, 28 de março de 2012

Quinze anos

Rio, 13/05/1997
Bruno,
Acho que estamos sem nos falar (e de repente, com uma visão estranha um do outro), por muitos mal-entendimentos (por minha e por sua parte).


Tudo começou porque nós “acabamos” (o que na verdade por nossa parte nem começamos) numa boa. Eu realmente tinha achado que você tinha feito “coisas” ridículas comigo (que não vem ao caso). Desde então, o clima se modificou totalmente, mas ainda nos falávamos bem. Foi aí que me falaram que você disse umas coisas sobre mim aos meninos (fiquei muito chateada, mesmo sem saber o que você havia falado, mas sabia que era alguma coisa ruim e aí te achei mais ridículo ainda). Daí em diante, eu já não conseguia falar com você como antes, parecia que havia uma barreira. Então, nós fomos nos falando cada vez menos até parar, eu pensei que você não queria mais falar comigo e você achou que eu não queria mais falar com você, foi um mal entendido, mas já estava se acumulando com tudo. Agora, além de todos esses mal-entendidos, o pior de todos não ocorreu (ou pelo menos é o que eu acho) eu não queimei seu filme com ninguém (principalmente com gente da 7ª série, como eu poderia  se eu nem conheço?), aliás pensei que você estivesse queimando o meu com seus amigos...
Quero te explicar o que houve:
As únicas pessoas que eu falava que fiquei chateada com você eram Carol, Cacá, Ana Cristina, Bruna, Bianca, Andréa e Ana Luisa (que até algumas vezes me ajudaram a enxergar na época que eu estava chateada, antes de acabar). Eu falei para elas que eu fiquei chateada com você porque quando estávamos “ficando”, você falava mais com a Carol do que comigo (e isso você sabe que era verdade), aí chegava na hora da saída, fora do colégio, e você me beijava, e que fiquei muito confusa ( e até pensei que você tivesse vergonha de mim, apesar de não ter dito isto a ninguém, só a Carol).
Agora vou te falar porque eu disse tudo isso a elas, afinal não foi por nada:
Elas perguntaram por que nós não estávamos namorando (porque terminamos) e por que não nos falávamos mais (que nem eu sabia responder), daí eu falava aquilo. Cada vez me confundia mais. Por causa disso eu até fugia do assunto Bruno (foi mal) porque não queria ficar comentando com ninguém. Outra coisa, tudo que eu falava no meu grupo, elas concordavam ( e eu só falava quando alguém tocava no “assunto”) e até falaram coisas, que não partiam de mim, mas que em algumas vezes eu concordava, por exemplo, como perdeu o “encanto” (não por minha causa, aliás nada comigo). E também falam muito bem, como a Andrea que disse:
 - “Ah,! Ele é super legal, você não acha?” 
 Daí eu nem contestava e logo falava:
 - “É até pode ser, mas comigo ele não fala mais, não posso dizer se sim ou não.”
Quando eu estava com raiva, dizia que você era “chato” comigo (e deixava isso bem claro: “comigo”) mas alertava que era porque eu estava com um pouco de raiva. Ah! Lembrei de uma opinião geral que não partiu de mim, mas que por parte eu concordei, foi que você é um “grude”.
Agora pra falar verdade era impossível eu queimar seu filme com pessoas além dessas (que mesmo assim não acho que eu queimei, pelo contrário, pois eu não conheço “praticamente” ninguém do colégio, as minhas amigas então, muito menos. Era bem mais fácil você queimar o meu filme, você era mais “conhecido” na sala do que eu. A partir do momento que não nos falamos mais, meu filme já estava queimado. Em relação à 7ª série (que você conhece algumas garotas) era impossível te queimar, eu nem conheço ninguém de lá, era impossível eu falar com elas. No entanto, te peço 1000 desculpas se você ainda acha que eu queimei seu filme com o pessoal, realmente não tive a menor intenção e eu acho que há pessoas que aumentam muito (tipo: escutam A, B, e te falam “A”, “B”, “C”, “D” e “E”). Agora se você não quiser minhas desculpas e não quiser acreditar em mim, aí eu não tenho mais o que fazer. Espero que tudo se esclareça e que voltemos a nos falar.
(Responda por favor)
OBS: Eu também falei pras meninas que uma vez quando nós falamos no telefone, você falou (ou melhor, perguntou) se rolaria alguma coisa, se você não tivesse sido ridículo, daí eu falei que não, porque não tinha nada a ver e que também nós éramos da mesma sala, ou também falei que isto era uma desculpa, porque eu não queria mais por causa daquilo e não conseguia me ver em outra situação, daí ela falou que se não rolou uma vez é difícil (ou não) rola outra vez. Eu também disse só a algumas meninas que uma coisa me irritava era que você sempre falava: falaram, alguém disse... (nunca dizia quem). E outra coisinha: não me elogiava, só se elogiava (sem querer ofender), me irritava.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Carnaval

A manhã lilás e o ar parado.  Janelas suadas. Ar condicionado.  Tapete e almofada. Televisão sem volume. O som do jornal arremessado à porta. O teto reconhecido de baixo. O chão desconhecido no pé.  A visita anunciada do sol: era sábado.

Os estalos das articulações. O espreguiçar curto da pressa. Fontes de energia. Bateria. Celular. Computador. Pão. Queijo. Presunto. Cheiro de café do vizinho. Água de coco e daquela que matou o guarda. Passarinho tá com sede: é sábado.

Óculos grandes, peruca, chinelos. Telefonema. Garrafas plásticas. Gelo. A manhã rosada e o ar lento.  Janelas abertas. Música. Rádio: volume sem televisão. O jornal folheado às pressas. O teto testemunha de cima. O chão redesenhado à risca. A luz intermitente do sol: sou sábado.

A chave de casa no bolso, o gole de gelo na boca, o soro pingado nos olhos: a vista recuperada do susto. A bolsa no colo, o porteiro com sono sorri, o portão da garagem sem medo: o retrovisor do carro sem nó. A manhã alaranjada e o ar desordenado. Janelas sem vidros, tanque sem gás: o jornal pelo rádio sem som. O teto pequeno. O chão imóvel. E o sol torto pelo espelho cego: sábado é o álibi do domingo.

Posto vazio, ruas viradas, lagoa ensolarada. A vontade dela, a saudade daquela e a certeza: ela. Um refrão na voz do Roberto, o Ribeiro, frisa-se, para não haver desencontro. O toque do celular, o amigo atrasado, a amiga ansiosa, os amigos que não dormiram, os que não acordaram.  

Abre a porta, já tem gente cantando. Amanhã tem mais. Para ontem não há palavras. Mais um hoje. Vamos de novo. O bloco saiu.  

Mas já volta.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Abrir caminhos

Sentir saudade é indefinível. Pode-se, claro, recorrer à tentativa de explicá-la através de uma música daquela época, de um cheiro da infância, de um lugar, de um sabor. Dizem que ter saudade é bom; também sei dos que concordam que é ruim, pois certas vezes não poderemos, nunca, encontrar naquela pessoa ou naquilo que nos faz lembrar daquele tempo, a razão da falta.  E aí dá um aperto no peito: a respiração vacila.

Abrir espaço para o novo. A frase que ouço desde criança reaparece na memória logo no início do ano. Talvez porque minha mãe repita tais palavras naquela ordem nesse mesmo período. Sempre me perguntei a razão do conselho, se é que pode-se chamar assim, mesmo que saiba de minha dificuldade em desvencilhar-me do passado. Recortes de jornal, revistas antigas, contas já pagas, comprovantes bancários, fotografias de pessoas que não amo mais e, ainda, das que não me amaram nunca. Lá no fundo, apertando a ferida, insisto: ah, mas, de repente, posso precisar ler de novo aquele artigo, o banco pode dizer que não fiz o depósito, podem dizer que o pagamento já saiu. Aquela pessoa pode voltar, aquele tempo pode voltar e eu posso voltar a ser aquele que guardou a foto. E logo após o mergulho, ao recuperar o ar do tempo, reconheço que a lágrima é o único líquido retido pela lembrança. Amontoar recordações, quaisquer que sejam, impossibilita viver coisas novas – ou simplesmente viver.

No entanto, buscar a saudade é estranho. Cercar-se de artifícios que nos remetam a outras épocas ou a outros eus, os que passaram, não nos ajuda a abrir o caminho para o novo. Quase forjamos uma nova personalidade a partir da antiga, não nos permitimos falhas; o receio de seguir em frente, mesmo quando seguir em frente não significa seguir em frente: às vezes caímos num precipício, outras tropeçamos – e só seria possível se déssemos o passo na direção da vida. Quem é esse novo? O amor, o trabalho, o sofrimento, a saudade.. Ainda não sei bem.

Mas mudar sempre é novo.