quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Vovó Guiomar

Vovó Guiomar faria hoje cem anos de idade. Libriana dos pés ao fio de cabelo. Uma doçura de pessoa. Terna, paciente e muito sensata. Não havia parado para pensar na data centenária, sua filha, minha mãe, que me lembrou anteontem: sua avó completaria um século de vida nesta quarta-feira. Sorri com a boca entreaberta, busquei sua imagem no ar pela memória e consegui vê-la sentada no canto do sofá, lado direito, seu lugar cativo do apartamento da Joaquim Nabuco. A casa da Santa Clara, que não pude conhecer, se desenha sempre diferente na minha imaginação. Pois fiquemos pelo apartamento, quarto andar do prédio, de frente para rua, onde me sabia cada vez mais velho à medida que meus olhos iam ultrapassando os limites do parapeito. “Não debruça, menino!”. Hoje alcanço a saudade olhando pela mesma janela.

Os almoços de domingo e os Natais eram sempre lá. Família reunida somente no fim do ano – isso quando calhava de conciliar os compromissos de todos. Era povo de Brasília, São Paulo, Porto Alegre, daqui. Primos que iam se multiplicando, outros que se ausentavam para outras ceias – havia mais famílias além da nossa. E vovó assistia a tudo, àquela bagunça, sempre sorrindo serena, sentadinha à direita do sofá, ou à direita da cabeceira da mesa de jantar, lugar que era meu até o tio Sérgio chegar. Aquele lugar era dele, mas me emprestava enquanto estivesse na Granja Viana, em Cotia. Ric vinha sempre ao Rio comprar camisas da Company (não vendiam em Sampa). Carol e Eliane, suas irmãs, corriam para Bumbum atrás dos biquínis cariocas pelo mesmo motivo. Tia Lia tirava as tardes para levar os três pirralhos  nessas lojas. Tio Sérgio contava histórias na mesa e comia um prato de feijão cheio de pimenta malagueta, inclusive mordendo uma inteira sem pestanejar. E me fitava como se dissesse em pensamento: tem coragem, garotão? E me arremessava para o alto. E eu nem era mais tão novo, deveria ter uns seis, sete anos.

Tio Paulo se dividia entre a praia do posto 8 (em frente à Laura Alvim, em frente à Laura Alvim, com a convicção fanática dos geminianos) e o BarraShopping. Era pra levar a Paulinha nos brinquedos e no Mc’Donalds. Eu, claro, ia junto. Tia Selma ia também e comprava presentes para todos. Todos. Mônica e Daniela já eram moças, adolescentes, já saíam sozinhas. Quando vinham, uma ficava pendurada no telefone com algum namorado. A outra tinha mais um pouco de paciência conosco. Achava as duas lindíssimas, com aqueles olhos verdes e sorrisos enormes e brilhantes. Eram as primas mais velhas. Eram mulheres. O Gilson chegava sempre tarde em casa, acordava meio-dia, era da night mesmo. Tio querido.  A primeira coisa que gostei nele foi a gargalhada altíssima. A segunda era que me dava uma grana “para comprar um guaraná”. Sendo que com aquele dinheiro eu compraria  quase uma fábrica inteira. E o Gilson era quem distribuía os presentes no Natal. Vovó Guiomar presenciava tudo aquilo na maior paz e tia Celina, sua irmã, figura única no mundo, estava sempre aflita com a comida, com os horários, com os choros, com a sobremesa, com o Banco do Brasil e com o Banerj. Mas adorava a casa cheia de sobrinhos-netos, de sobrinhos e sempre nos levava para ver fotos antigas coladas nos armários de seu quarto – que nos emprestava nas festas de fim de ano. Tia Celina, ou Tati ou Tai (apelido exclusivo deste que vos escreve) era uma segunda avó para nós. Ela e vovó eram a nossa casa.

Vovó Guiomar cozinhava muito bem. Lembro do livro de receitas que ficava na cozinha. Da geladeira que dava choque.  Do filtro azul. E do doce de batata roxa, das fatias lulu, dos quadradinhos, do bolo de nozes, do pudim de clara, da gelatina de camadas, do pudim de ameixa (que eu comia tudo, menos a ameixa), da carne assada, da maionese de batatas e cenoura, da sopa de legume como entrada, do sininho para chamar a empregada, do descanso dos talheres, da toalha de mesa de borboletas. Do sorvete de creme derretido quase um creme mesmo, da lasanha da Veronese quando não se queria cozinhar, de fechar a janela por causa do frio que só a vovó sentia; das orações de mãos dadas, dos choros contidos. Gostava de sentar ao lado dela, da minha, da nossa avó, no sofá e ficar agarrado à sua mão e contando coisas do colégio. Eliane, quando vinha de São Paulo, também gostava deste mimo. Às vezes vovó tirava as sandálias e punha os pés para cima para melhorar a circulação. Era sempre na hora da novela das oito. No especial do Roberto Carlos a família toda parava em frente à televisão (que custou a ter controle remoto). E o presépio na entrada da sala de estar era sempre um sinal de que vovó e tia Celina se preparavam para nos receber. Até hoje é assim dentro da gente.

Quando eu morava ainda na Canning, vovó sempre me visitava à tarde. Levava uma pastilha Garoto e me fazia companhia até minha mãe voltar da galeria de artes ou meu pai sair do plantão. Sorriso lindo, sereno, voz mansa. Vovó era uma dama. Uma pessoa boa, carinhosa, mas não era ingênua, não. Era feliz. Apesar da perda de uma das filhas ainda muito nova, apesar de ter se casado -  e separado – apenas uma vez. Uma mulher que tinha o brilho e a inocência de uma criança e, ao mesmo tempo, a alegria e a ternura. E foi a grande matriarca da família, seguindo a linha de sua mãe, Alzira, uma baiana braba. Diferentes, mas semelhantes na arte de proteger a família. Talvez por isso tenha nascido no dia doze de outubro, onde se comemora o dia das crianças e o dia da padroeira do nosso povo.

Vovó Guiomar, feliz dia das crianças. Que saudade de você...

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Clichês

As palavras a seguir não serão escritas por mim. Elas já estavam por aqui, considero-me apenas um arauto desses novos tempos. Como se me apalpassem o espírito, como se me cortassem a carne. Surjo, pois, de onde menos poderia esperar e me flagro sorrindo ao lembrar da frase: o telefone só toca quando estamos distraídos.

Escolhi as coisas simples. Não é fácil, portanto, contentar-se com todas decisões que tomamos durante a vida. Procuramos esconderijos em nós mesmos, buscamos fugir do que não podemos escapar, oscilando sempre no intervalo do que queremos ser e do que poderíamos ter sido. E me conforto ao recordar do que me disse um amigo tempos atrás: para se ter uma coisa na vida, é preciso abrir mão de outra.

Como no samba do mestre Luiz Carlos da Vila: “E nesse vai-ou-não-vai/ Fiquei meio sem direção/ Cometa que passou bem longe/ Dos olhos da multidão”. A velocidade que nos impomos para o reconhecimento de nós mesmos, como se nos cobrássemos desfechos sem meios, como se a avidez pelo resultado superasse o medo da derrota. Vencer é enfrentar desafios de frente, que se danem os clichês – sei que muitos porão dedos sobre tais frases ou pensamentos – mas o escritor que tem medo do lugar comum não vai a lugar algum. Como disse certa vez o roteirista francês Jean-Claude Carriére: “Não tenha medo de partir do clichê, de uma situação conhecida. É trabalhando que se chegará à originalidade, pouco a pouco. Ao procurar a qualquer preço uma situação inicial absolutamente original, e por isso desconhecida, terrível, pouco a pouco ela será rejeitada, atenuada, arredondada, terminando de forma medíocre no convencional”. O que percebo ao examinar minha existência, é que sempre quis fazer diferente, ser original, mas não deixando de ser eu mesmo, como se prega por ai até hoje. Falhei. Zerei-me. E descobri que todos partimos do mesmo ponto, somos clichês de nós mesmos, ainda bem. A procura pelo que queremos vem depois de aceitarmos que o segundo fôlego é o que nos move.

E não haveria como não lembrar o que me disse uma grande capoeirista, do alto de seus vinte e um anos: devagar também é pressa.

Por muito tempo fui mistura do que quiseram que eu fosse e do que me permiti que me forjassem. Afoguei-me muitas vezes, mantive a calma e a bebedeira, procurei viver momentos mágicos, incríveis, surreais, sensacionais e fantásticos. Palavras bonitas, mas que perdem a força por (não) representarem a mesma coisa. Significados diferentes que querem adjetivar momentos ou épocas inesquecíveis. Taí uma palavra-clichê que, de longe, supera todas aquelas outras: inesquecível.

E recorri à frase lida pela manhã em algum lugar: quem olha pra fora sonha, quem olha pra dentro acorda.

Mas quem recomeça todo dia não recomeça nunca.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Polônio e Laertes

Gostava de pensar que as coisas deveriam ser simples. A luz do sol, o farfalhar das árvores, o azul de tantos céus diferentes. A caminhada pela manhã, a saudação ao vizinho da rua, o olhar atento às crianças, outro mais atento às moças, o andar trôpego dos perfumados pela aguardente. Recolher-se cedo, aproveitar a casa, a sala de leitura, visitar a mãe. E não havia lugar para notas, havia? Tantas similitudes entre o que tinha planejado para sua vida – e o que ela lhe haveria de arranjar. Eis aí o que necessitava, viver plenamente com menos recursos. Viver, apenas. E isso já lhe bastava. Já lhe confortava a idéia de que, ao despir-se das vidas que lhe impuseram outros, seria um homem novo: ele mesmo.

Não havia lá tanta graça em desocupar-se de uma profissão. Mas de um trabalho qualquer, eis aí onde reside a dignidade do homem, não se pode abrir mão. E como proveria seu sustento, já que a féria mensal lhe seria reduzida? Estalou os beiços e murmurou para si: a minha fome não se resolve com notas, ora, que mal há nisso? Ainda tenho saúde, alguma idéia na cabeça e a língua: tenho a palavra.

Prendeu o ar e atirou-se contra o tempo. Tudo era lento e embaçado. Foi à casa da avó, mais à frente visitou o antigo colégio, para lá não havia mais recreios – tinha sido erguido um prédio que lhe havia escapado do mapa da memória. Riu-se. Seguiu viagem no pensamento e foi repreendido por si mesmo pela insistência em trazer ao presente tantos passados de sua vida. 

Ergueu-se de mais um devaneio e foi buscar um copo d água na cozinha. A louça estava lavada, mas tanto a alma quanto a consciência não reluziam o mesmo brilho. Por isso fez do prato espelho e procurou-se sem resultado. Lembrou do que havia dito a si: a minha fome não se resolve com notas. E sorveu um longo gole d´água pelo gargalo da garrafa, porque os copos estavam também limpos. Quem era ele para mudar o rumo das coisas? Tudo em seu devido lugar nos dá a falsa impressão de ordem, de asseio, mas são truques. Mas é apenas uma sensação – concluiria.

Ao peito aberto, caros, lhe coube outras aflições. A cartomante disse que deveria seguir sua intuição, as coisas estavam prestes a acontecer. Aos amores, às notas que não lhe fazem falta, às circunstâncias que lhe cercam: prossiga firme.



E tomou a reta sem ler a bula.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Regra três

"Abandonou-te?
- Pior ainda! Esqueceu-me."

(Mário Quintana)


O perfume do pão torrado ainda estava na lembrança quando deu-se a discussão. À mesa, pratos, copos e cotovelos. Não havia encosto suficiente nas cadeiras. Caíram sentados imóveis em silêncio. Talvez o maior intervalo entre suas vidas a partir daquele instante. As janelas escancaradas e o ar pesado. Era uma vez uma vez que não era.

Não havia mais barulho antes da risada. A cozinha ficou distante de tudo, até mesmo daqueles tempos à beira do fogão nas tardes de sábado. Ela vociferava e o repreendia enquanto ele relembrava quantas vezes já havia sentado naquele chão, próximo à área de serviço, descruzando e cruzando as pernas, mas prestando atenção no refogado. Prestando atenção nela.

Mesmo com os avisos, ele esquecia o copo molhado em cima da mesa de madeira. Ela reclamava da mancha que se formaria ali. Ele pedia desculpas, ela ria com o barulhinho conhecido que seu riso faz. Mas a vida é meio como o mar, com marés, ventos e tempestades. Pode ser traiçoeira e periga não se sair de onde está. A calmaria burla o pescador.

O filminho passou na cabeça. Aquele samba, aquela vez, aquele carnaval, aquele momento em que não viu mais sua vida sem ela. Aquela hora em que ela não se viu mais sem ele. Quando se perderam num tempo desconhecido e se encontraram nas primeiras pessoas do singular. E do plural. Erros de concordância de um futuro que passou.

A criança cresceu linda. Forte e cheia de vitalidade. Não precisava mais consultar pai e mãe, eles ficaram para sempre naquele apartamento. A infância passou invisível. A campainha que não funcionava era um sinal. Silêncio. Sem alarde. Não acorde. Não incomode. Ele teve que ir embora. Ela ficou. Porque amar é como dar à luz ao coração.

Não houve mais palavras. Tampouco silêncio. Ocorre que o barulho daquela risada busca nele um pouco dele que partiu. E é como diz aquela do Chico: saudade é o revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.


Ou que nos esqueceu.




quinta-feira, 2 de junho de 2011

Memória

Tem um filme novo passando: "Eu sou o senhor do castelo". Tá afim? Lá no Roxy. Depois a gente vai na Colombo, aí você come aquele uêiful empanturrado de manteiga e encharcado de mel. Bom, se tiver isso não tem sorvete de pistache, né? Tem?! Cacete, tá certo. Olha só, deixa eu te falar uma coisa, assim, pra você saber, esse lance de cinema, exposição, falar inglês e tudo mais, isso é mais com sua mãe, né?, você sabe. A parada do teu pai é rua, é o jogo do Vasco no Maraca, São Januário, tá lembrado?, quando a gente chegou cedinho ali na Praça da Bandeira, almoçou ali perto - pra ver a torcida chegando, o pai com os filhos, o casal vascaíno, os que vão sem camisa, mas levam pendurada no ombro. Foi daquela mesma vez que teve um assalto, lembra?, no ônibus e você ficou todo assustado... É, eu sei, ali qualquer um teria medo, eu também, porque ver gente armada é foda, não se sabe qual é a do cara, o que ele quer - ou o que querem dele. Mas voltando ao cinema, quero dizer, me falaram desse filme, queria ir contigo, parece ser legal. Vamos mesmo, fechado? Maravilha, passo aí na tua mãe lá pelas quatro horas, agora são onze da manhã, acabei de chegar do calçadão. Poxa, não vai dar, tô de folga esse fim de semana. Gostou do bandejão, né? Melhor que o do colégio?! Pô, aí, tua escola tá mal servida, hein?! Ih, não vai sair dizendo isso que eu disse, hein? Isso é papo de homem. Tá legal. Amanhã tem Vascão, hein? Mas não é aqui, é lá, entendeu? Aí passa na televisão. Isso, Bebeto. E parece que esse ano a gente é bicampeão brasileiro! Ano passado o Cocada quase acabou comigo. Mas acabou foi com eles. Deixa eu ir lá, meu filho. Daqui a pouco tô aí. Um beijo.


Até já.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Silêncio

Frear o tempo com os olhos

Ouço chover. Não é preciso abrir as cortinas. As vidraças tremem suavemente, o som da água me protege do frio. Um banho de palavras sem luz. O desejo desenfreado para que chova a noite inteira. Ainda que fosse senhor de mim, não saberia esconder as lágrimas. As janelas desatam a tagarelar. Examino a sala e não reconheço alguns quadros, talvez eles também não me saibam. O sopro gelado da cozinha. A almofada esquecida no chão, o espelho torto na parede do banheiro. Foi quando me lembrei que palavras são estrelas sem brilho.

Tatear o ar com as mãos

Ainda que fosse escravo de mim, não saberia esconder as feridas. É que tenho tido dificuldade em escrever. Como se as palavras estivessem escondidas na luz. Não fosse apenas não enxergá-las, mas não há como senti-las. Sinto-me suspenso, como se sob efeito de reticências. Também não adianta me desviar dos estalos da consciência, supostos atalhos para onde não tenho me encontrado. E de nada adianta insistir que palavras são fósforos.

Riscar o céu com os pés

De pernas para o ar me deixaram elas, as estrelas sem luz que são fósforos. Para este incêndio sem alarmes, a rota de fuga é buscar metáforas sem sentido. Talvez sirva como consolo literário, essa coisa de encurralar a inspiração, atormentá-la madrugada a dentro com respingos de insônia, da chuva que não terminará enquanto ainda houver fôlego. A luz que me deixa as palavras cegas, o reflexo de estrelas sem brilho, de fósforos riscados. A escuridão me permite fabricar tantos de mim que escrevo com os pés suspensos e mãos idem. Mas de olhos fechados.


Porque silêncio é uma palavra invisível.  




quarta-feira, 13 de abril de 2011

O luto de Tasso da Silveira

"A violência é tão fascinante
E nossas vidas são tão normais
E você passa de noite e sempre vê
Apartamentos acesos
Tudo parece ser tão real
Mas você viu esse filme também.
Andando nas ruas"


Legião Urbana - (Baader-Meinhof Blues)

--


A minha mãe foi aluna do Tasso da Silveira. Soube disso quando assistíamos pela televisão às reportagens sobre o ataque. Enquanto suspirava triste e murmurava alguma coisa para si, eu prestava atenção à sua reação. Mas sem tirar os olhos da tela. Então virei o pescoço para sua direção, inclinei o queixo para o lado onde ela estava sentada, numa tentativa de captar melhor seu luto, enquanto as imagens de pais desesperados e crianças manchadas de sangue invadiam a sala. Imaginei como seria estar na redação naquela hora. Tentei imaginar que, caso estivesse na redação, como seria estar de férias e não participar da cobertura. Nesse caso, não era de se imaginar, porque, de fato, era o que se sucedia. Não cheguei a lamentar não estar lá para cobrir o caso, mas acho que minha profissão tem o dever de informar sob qualquer circustância. Informar, pois bem. Mas acontece que iria viajar neste mesmíssimo dia para o Nordeste. Também não cheguei a lamentar a viagem - num dia marcado pelas violências social e psicológica às quais somos submetidos diariamente. É como cada nova informação fosse uma peça nova para vivermos, à pele de cada personagem da tragédia, mais uma etapa do sofrimento das famílias, amigos e professores. Não bastasse nos identificarmos prontamente com os alunos mortos a tiros  - porque todos nós fomos crianças e todos as temos em nossas famílias - cada lágrima e cada silêncio ficou um pouco nosso também. Mas, ao mesmo tempo, todo o ódio e frieza passou pela minha cabeça. Acho que muita gente tentou entender o que se passava na mente daquele rapaz, o que passou na hora, o que se passou anos antes, momentos antes: e o que não passou.

Na manhã daquela quinta-feira, fui mãe e pai daquelas crianças. Fui morto mais de dez vezes. E ainda estou ferido (como aquela manchete precisa do Diário de Pernambuco). Mas também fui assassino. Fui policial. Fui professor. Fui amigo. Fui colega. Mas ninguém foi Tasso da Silveira. O poeta passou despercebido naquela matança covarde. Lembro que escreveram um verso dele em algum lugar, mas as atenções eram quase todas voltadas ao assassino, com certo excesso, a meu ver, e algumas às vítimas e seus familiares, drama explorado também com certo exagero, na minha opinião. É claro que havia motivos mais do que justos para que o escritor ficasse invisível naquele momento, mas o que me chamou atenção foi, depois do primeiro impacto sobre as mortes em série, minha mãe olhando para cima, com as mãos elevadas e espalmadas próximo ao rosto, falando baixinho: ai, Tasso, professor querido, que tristeza que se passou diante dos seus olhos. Ele, que, ao final da vida, já estava quase cego, testemunhou um massacre contra nossas crianças. Ele, que ministrava aulas de Literatura e tinha a poesia como imagem infinita.

Tasso da Silveira, explicava minha mãe, veio do Paraná para dar aulas no Rio nos anos 60. Foi professor de Literatura na Faculdade Santa Úrsula, onde deu aula para sua turma durante três anos. Quase cego, era conduzido pela esposa até as salas da universidade. Adotou o costume de recitar versos entre uma lição e outra, tudo sem ler uma linha sequer. Só de memória, além de recitá-los, dava apelidos aos alunos. O da minha mãe era "Suavíssima", porque, dizia, que sua voz era como um murmúrio de um rio.

Quando sua mulher morreu, Tasso, de alguma forma, ficou órfão, pois ela era além de seus olhos, sua luz. Era ela quem o o ajudava na correção das provas.

Minha mãe não esquece o primeiro dia de aula após o luto. Ele chegou, atirou a pasta em cima da mesa (como se fosse um murro seco), em seguida fitou a turma (provavelmente tudo embaçado), e disse uma frase que nunca esqueceria: "Estou chegando do pedaço mais profundo de minh´alma, perdi parte de minha vida".

Mas nunca deixou de dar aulas. Sozinho, pegava o lotação, saltava na Praia de Botafogo, e aguardava que alguma aluna o conduzisse pelo braço para atravessar as duas pistas, perigosíssimas, de Botafogo. Minha mãe conta que teve a honra de conduzí-lo várias vezes naquele trajeto. Então, nesses momentos, para não constrangê-lo, ela dizia: "Professor, o senhor me dá a honra de eu poder acompanhá-lo?"

Ele lhe dava o braço e seguiam pela Rua Farani até faculdade.

--



"Verso meu, fio d'agua oriundo
Da fonte da dor... pudesse
(Ai de mim ! )
Fazer-te tão claro assim,
Que se visse, lá no fundo,
- só - minha alma cantando
ou soluçando."
                      (Tasso da Silveira)