quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Elevadores

"Nova York era a cidade mais importante do mundo. Hoje não existe mais isso. O lugar mais importante do mundo é o computador" 


J. Selarón - artista plástico 
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Abri a porta. Entrei. Examinei-me através do espelho, cintura para cima à vista, cintura para baixo não fazia diferença saber, quando olhamos a nós mesmos só interessa cabeça e coração. Mesmo assim não pensei nisso quando reparava em meus olhos ao passo que alisava rapidamente a barba crespa de meu rosto grande. Apertava minhas faces com a mesma mão, com o polegar de um lado da bochecha, e o resto dos dedos no da outra, como se, ora aberta ora fechada, pudesse adivinhar quantos pelos do bigode havia sobre meus lábios. Afrouxei a gola da camisa, abri dois botões, mas a porta do elevador ainda não havia fechado, ela regressava lentamente do puxão que havia lhe dado, porém menos sutil de como fazemos com geladeiras, ao retornar à caixa metálica pendurada por cabos de aço, como um iô-iô robótico onde transporta-se gente. Mas, sim, há espelhos.



Escolhi o último andar como destino. Décimo-primeiro. Coberturas são chatas para dar uma volta. A luz do numeral se acende, mas imediatamente outros botões do painel começam a ganhar vida laranja e sei que, certamente, terei companhia aqui dentro. À minha frente, as portas repartem-se em duas, como se fossem janelas automáticas, e eis que surge uma moça. Sobe? Eu disse que sim. Ela vinha da garagem, que fica acima da portaria. Então foi aquele ritual costumeiro, quando se olha pra cima, para o lado, finge-se procurar algo na bolsa que não existe, conferir se as chaves estão no bolso, mesmo sabendo que estão. Acompanha-se a velocidade do elevador ao passo que sobem os andares, como se fosse um placar eletrônico predial, e assim meu passeio se dá, reparando no que as pessoas fingem não reparar. Devem pensar que não estou bem de cabeça, que ideia é essa de subir e descer pelo elevador, que coisa mais sem sentido, que perda de tempo, que idiotice. Pois bem: é.



Rumo ao trabalho. Não bastasse não ter janelas, todos somos fisgados por telas de cristal líquido e mal conseguimos conversar com colegas. A hipnose desempenhada pelos computadores arrasta, ou melhor, paralisa multidões. Tanto os seguranças da portaria, quanto os bebuns da padaria, quanto os perfumados da brasserie ao lado, quanto os executivos lá de cima, nós aqui de baixo, e quem disse que também não vivemos todos num elevador social? Agora também há as máquinas portáteis. Computadores em miniatura que servem para escrever e ler correspondências eletrônicas, localizar outros amiguinhos que também têm posse de similar parafernália, que registra fotos, também as envia para outras máquinas que ficam dentro de máquinas, ou melhor, que são hospedadas. Caminhamos corredores adentro com o queixo colado no peito, braço para frente, e com os quatro dedos fazemos berço, do telefone um bebê, do polegar, o dengo. Mas, não esqueçamos, a vida continua a circular do lado de fora desta fábrica de solidão. O isolamento individual curiosamente nos faz pregar exaustivamente a coletividade.



É quando ouço sobre festas: o evento vai bombar, vai todo mundo!. Quem?! Ah, sim, as pessoas que se isolam em computadores, em blackberrys, i-phones, e o cacete a quatro, que vivem em redes sociais, esse todo mundo, que vivem em círculos sociais. As que criaram celas Vips, festa-fechada-só-com-gente-bonita-primeiro-lote-acabou. A modernidade que chega à tecnologia é sensacional, sei, é claro, porque também a desfruto, mas o que se vê é (e que nunca deveria ser) é a industrialização das pessoas. É a maquinização dos gestos. Ensaiar instintos e frear a espontaneidade. Tudo é rápido na vitrine, é raso, é ralo: é falso.



As pessoas trancam-se em si mesmas. Não querem fazer muito esforço, são seduzidas por números, metas, e sensações de pseudo-liberdade. Hoje, nós compramos o descanso. Trabalhamos a duras penas e aos baldes e sim, recebemos por isso, há também quem não goze deste, hoje, privilégio, que é ser (bem) remunerado em dia. Pois saímos do local de trabalho e seguimos para a academia, outro elevador com espelhos, lugar de altos e baixos do corpo, local de falsa harmonia, onde se repara em quem finge que não nos repara. Ficamos, pela terceira ou quarta vez no dia, trancafiados com espelhos e ilhas de solidão, que às quais chamamos de pessoas modernas. Ou melhor, antenadas.



Quem não for da saúde, sempre há quem não seja, sai do batente para o boteco. Antes, bebia-se na rua, como ainda fazem poucos, mas agora bebe-se em bares requintados, aromatizados, educadinhos, moderninhos, que ouviu-se falar na praia por um artista ou que saiu na revista. Se estiver na mídia, se for fabricada, os arquipélagos solitários já sabem para onde dirigem-se, porque outros barcos vazios de gente atracarão às suas margens, coisas de continente.



Vejo que as pessoas estão ancoradas no presente. O futuro, por estar sempre próximo, sempre fica pra trás. Mas basta enfiar a cara na tela do computador que a vista fica bonita. E por não deixar de ser nosso reflexo, não deixa de ser um espelho. Da realidade de nós mesmos. Mas são variações sobre o mesmo tema.



Ou reflexões sobre a mesma cena?


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Passagens

O peso do mundo sobre mim. A pressão no peito, as costas castigadas pelas farpas. Tudo é pequeno e honesto, as larvas se alimentam da minha carne, os vermes existem por minha causa. Estou fechado em mim. Minhas vestes descompuseram-se, são trapos sujos e podres. O fedor do meu corpo, além de outros cadeados, delimitam o mofo de minha existência. Usurpei a luz, que já não me fazia enxergar. Declinei dos olhos, que já me permitiam não ver. As coisas são finitas. Meus braços cruzados repousados sobre meu ventre vazio, entre o coração que não me existe mais e o estômago inundado de borboletas moribundas. Cravaram-me uma estaca no espírito e o grito desfez-se em grãos de terra.




A conta-gotas, as lembranças surgem da tábua reta distribuída sobre mim. Um palmo acima de meu nariz sem cartilagem. Ainda posso recorrer à memória curta e ouvir o movimento das pás, que me cobriram com restos de chão, que me afagaram os cabelos quando ainda eram fios, que me acariciaram os pés, que já não caminhavam sós. Pois não ando bem. Por aqui, mesmo no leito termal das passagens, mantenho-me aprisionado por estofamentos confortantes. Talvez o repouso acolchoado amortize a culpa de quem me fez adormecer. Despertar-me aqui, no entanto, é selar minha dívida terrena. Alastrou-se em mim o medo em não ter culpa, um temor quase regozijante: vivo.



O céu de raízes tortas. A água barrenta dos choros. Debruçaram-me ainda quando estava morto. Hoje sementes: sentimentos crus. Troncos fétidos, pedras, estrelas. A angústia claustrofóbica em não ser: ter sido. Esmurro as paredes madeiriças, não há força, não há saída, não houve, por isso estou onde estou, enjaulado dentro de mim. Escapei-me.



Às recordações retorno em pensamento. Correntes de ar ficam de fora. Ventanias antes do ritual sem cerimônia. Vestidos esvoaçados, paletós escuros, rostos iguais. À bombordo, quem me traiu. À estibordo, os que decepcionei. Estátuas em cima dos que estão acima de mim, perambulando pelas alamedas. Fiz-me convés e naufraguei.



Terra à vista.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Fugitivos

Não é possível que se possa matar uma pessoa tantas vezes.
Além do corpo, da alma e da memória, a fuga de assassinos como Zeu só reforça o que todos sabem: crime hediondo é crime! Também exuma-se o respeito?

Não pode!

Essa ditadura judiciária, essa consternação social, uma procrastinação política e burocrática de governantes que administram, mas não governam: assistem a espetáculos midiáticos com apelos à opinião pública. Andamos em círculos e cavamos não só a nossa, mas a cova de quem já estava morto.

Que vergonha.

Devemos lutar por mudanças de quem legisla e não da lei. É preciso mudar o homem. Não aguento mais essa complascência promíscua, essa falta de dignidade moral, mas que "cabe na legalidade".

Francamente...

A lei é inanimada, mas tem mais vida de que quem morre por ela.

Ou dos que vivem de seus favores.

domingo, 18 de julho de 2010

Sentidos

Passo firme. Sapatos lustrados, camisa engomada e respiração apressada. Calçada. O movimento dos braços uniforme, buscando equilíbrio no espaço, esquivando o corpo das crianças e das senhoras do bairro. Os carros espreguiçavam-se pelas ruas mal asfaltadas, esburacadas e carcomidas pelo peso dos caminhões e por outras tantas máquinas industriais motorizadas. Havia cavalos soltos no terreno ao lado da casa, mas não chegavam a ultrapassar as cercas. 




Era curioso como também havia tantos outros mundos naquele mesmo momento, tantas pessoas que também não ousariam cruzar os limites de ruas e avenidas. A vertigem que sentia ao caminhar para o escritório misturava-se às lembranças sem idade. Passava pelas vielas silenciosas e reparava com olhar minucioso os casebres vazios, os muros triscados, e pensava, chegava a murmurar para si, ali seria infeliz, naquela varanda choraria seus amores, naquele portão esperaria um sinal dela, naquela janela ela o veria vulnerável, ele a desvendaria por inúmeras noites, ela se entregaria por uma única vez. E mudava o rumo do pensamento sem mudar a direção da caminhada. Estava indo para o trabalho, mas dava voltas pela memória.





Lembrava das histórias contadas por seu tio. Quando ele e seu pai eram meninos, costumavam ir para a fazenda. A entrada da fazenda, o cheiro da fazenda, os portões, os currais e as histórias. Rapidamente voltou a si e continuou o processo contínuo de esticar a perna direita marcando o chão com o pé direito, pousando levemente, mas com determinação o calcanhar, seguidamente da sola grossa, e por fim o dedão, todo esse corpo de apoio envolto por um pedaço de algodão branco, enfiado num sapato de couro preto, lustrado, mas gasto e impreciso. Como o tempo.




As hastes dos óculos escorregavam pelo nariz. Ônibus enfurecidos zuniam pelas ruas no sentido contrário de seu destino. Saudades dos almoços de domingo na casa da avó. Semana que vem vou viajar. Hoje não. Essa música sempre toca quando eu passo por aqui. Controlo meus passos. Se pudesse, leria agora aquele capítulo que deveria ler à noite. Meu controle-remoto pifou, faz tempo que não escrevo, hoje eu corri, mas agora até o fim do ano ainda falta muito. Vou ouvir de novo essa música que não prestei atenção na parte que mais gosto.



Quantas vezes preciso rebobinar o filme para recuperar um frase que não ouvi, ou uma legenda que passou muito rápido. Umas cinco, dez vezes. Às vezes, eu até entendi o que foi dito, provavelmente em inglês, mas eu quero entender qual a lógica adotada pelo tradutor, então eu leio duas legendas em vez de uma, o que me confunde, o que me faz rever a cena, o que me permite reparar no que não vi – ou no que vi, mas não reparei.




Garrafas quebradas. Despachos. Pedras e limo. Voltam à cabeças dezenas de imagens da cachoeira e do rio. Da praia. Dos mergulhos. Minha barba está grande, o bigode ultrapassou meus lábios, outras palavras me fugiram, outras voltaram, e há as que ainda não vieram: ficaram.




Assisto a filmes no mudo, minha cabeça gira a mil: cem metros nem rasos nem profundos.



Mas precisos como meus passos.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Oito

Datas e nomes. Faz-se assim a memória do povo. Sofrido e injustiçado, sentindo na pele as agruras do tempo e do espaço. Oito anos sem Tim Lopes. Percebe-se que, no período após o assassinato brutal do jornalista e depois de outros assassinatos na cidade e no país, a sociedade ainda não definiu qual direção tomar em relação aos direitos humanos, estes, sim, inafiançáveis sob qualquer perspectiva. Acredito veementemente que a justiça é cega. E é na escuridão do equilíbrio e no clarão da razão que, percebe-se, a justiça também é surda. Oito anos sem Tim Lopes.




A progressão do regime para crimes hediondos. A frase, por si só, não mereceria que fossem tecidos sequer comentários ou ensaios. Qualquer crime contra a vida, para não citar (ainda) outros, é hediondo. Oito anos sem Tim Lopes. Além do repórter, outras pessoas de bem também foram brutalmente assassinadas. Famílias, dilaceradas. Dor. Assassinato, tortura ou qualquer outra violência física premeditada (ou não) devem ser considerados crimes graves e sem direito à fiança. Mas já o são! – ponderariam uns. O que é preciso é mudar as leis - diriam outros. Ainda: se não houver mudanças no Legislativo, qual crítica a aplicar-se ao Judiciário? – concluiriam os que ponderaram. Pois bem. Dai a César o que é de César. E a César o que é de Deus. O que é do povo. Oito anos sem Tim Lopes. A sociedade, principalmente a juventude, tem nas mãos o poder da mudança, mas não constrói a mudança do poder. Sofremos um tipo de preguiça social. Cobrar dos administradores públicos e autoridades é dever do cidadão, mas também é obrigação dele exigir a aplicação da lei. Oito anos sem Tim Lopes. Só queremos que a pena dada a assassinos frios seja cumprida. Queremos que os réus sejam culpados e sejam punidos. Mas agora, inacreditavelmente, temos que querer o (não mais) óbvio: que o preso fique preso. A progressão do regime só é discutida após fugirem os beneficiados. Os assassinos. Os torturadores. Os condenados. Contrariando o ditado: só a depois da porta arrombada é que coloca-se o cadeado? Não temos cadeados.




Oito anos sem Tim Lopes. E o que se não falou até agora, é que o benefício da progressão encoraja, ainda que veladamente, bandidos a cometerem crimes de maior violência. Financiamos a consciência do criminoso, instruímos o bandido a “melhor” maneira de praticar um delito na medida em que os amparamos com advogados que, pelo argumento do protocolo do ofício, lhe garantem o direito de defesa. Os praticantes de crimes hediondos, com aquele raciocínio típico (sim, eles raciocinam mais do pensam): se for me sujar, não será por pouco. Porque o ladrão de galinhas, ao ser preso, é julgado e condenado. Cumpra-se a lei. Já o ladrão de vidas é preso, julgado e condenado. Oito anos sem Tim Lopes. Depois segue o caminho inverso: é condenado, novamente julgado e solto. Por bom comportamento. Quer dizer, bom só depois de ser preso. Então, para andar livremente pelas ruas, o golpe é praticar um crime (hediondo, para não deixar dúvida), fugir, manter-se no anonimato, ser preso, daí a ser julgado novamente, condenado, daí a portar-se bem e ser beneficiado pela progressão de regime: o semi-aberto ou a liberdade condicional. Aí, vai e não volta. Aí, denuncia-se pela imprensa. Depois da denúncia - mas antes do esquecimento – o condenado é recapturado, julgado, condenado (mais uma vez) e preso: escreverei essas mesmas palavras, andarei pelos mesmos círculos? A tontura social casa e desnorteia. Oito anos sem Tim Lopes. Sigamos em frente, pai.






Quando alguém é assassinado, seus amigos e familiares também morrem. Não a morte física. Nem toda morte violenta é física. Mas a lembrança e a saudade são mortes diárias, lentas: são feridas. Quando parte de nós morre, aos poucos, mesmo com a superação do trauma – e nunca o esquecimento – o sofrimento fortalece. Mas quando algum assassino é solto, ou como se prefere dizer, é beneficiado pela progressão de regime, familiares e amigos da vítima sofrem, mais uma vez, (e todas as outras que vieram antes, por conta do sopro das recordações) e, estes sim, voltam às prisões do tempo: o medo. A dor. Somos condenados eternamente a vivermos sob revolta e tristeza, acompanhando sempre a gangorra de processos, recursos e revisões. Uma lavagem cerebral eterna, com mergulhos no passado sofrido, que dói, que fere: que não acaba nunca. Somos sacudidos pela fúria da nossa dor, somos resumidos a réus, promotores e juízes. Não temos defesa. Presenciamos condenações rigorosas, mas a lei é condenável. São muitos julgamentos e pouco(s) caso(s).




Tim Lopes foi assassinado e sua morte abriu uma ferida na sociedade, na imprensa e na administração pública. Repercussão internacional. Repercussão eterna. Um divisor de águas na maneira de se cobrir a violência em grandes centros urbanos, afastados socialmente das periferias, mas bem próximos geograficamente. A partir de sua morte soubemos ao que gente de bem, que mora em favela, é submetida. Soubemos como o jornalista foi (pode ser) afrontado. Uma tentativa de calar a imprensa: de calar o povo. E é o povo que deve espernear e brigar contra a progressão de regime em casos de crimes hediondos. Oito anos sem Tim Lopes. O que se protesta e pleiteia é que a lei seja cumprida, que a lei valha, também (e principalmente), depois da condenação:que a lei valha depois da condenação. Porque a condenação vale é por causa da lei. Mas no Brasil a lei tem validade, ela expira. A lei serve para condenar o réu, mas não mantém o réu preso. Isso não consta nos autos.




Vivemos num regime de progressões – e não numa progressão de regimes. Cometer crime, hoje em dia, é quase um deslize, uma falta de sorte. Uma lástima. Quase precisamos pedir desculpas por termos sofrido algum tipo de violência em nossa família e ainda precisamos sofrer outro tipo de violência, a surda, que nos esbofeteia a cara com o benefício da progressão de regime a assassinos, a redução da pena e, consequentemente, a estagnação do processo. A mobilização para a mudança na lei começa onde termina a última frase do jornal. Não saímos do lugar, mas reclamamos da nossa posição. Falta tempo ou espaço? Precisamos fazer alguma coisa.





Oito anos sem Tim Lopes.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Segundas

Marquês de São Vicente;
Quatro, três, dois:


Padre Leonel Franca, Visconde de Albuquerque, Ataulfo de Paiva e Visconde de Pirajá;

Gomes Carneiro, Francisco Sá, Nossa Senhora de Copacabana e Princesa Isabel;

Lauro Sodré, Venceslau Brás, Pasteur e Pedro Álvares Cabral:

Praia de Botafogo;

Santiago Dantas, Pinheiro Machado, Ipiranga e Laranjeiras;

Santa Bárbara, Catumbi, Salvador de Sá e Estácio de Sá:

João Paulo I, Doutor Satamini, Professor Gabizo e Mata Machado:

Maracanã;

Varnhagem: Felipe Camarão e Boulevard;

Barão de Drummond, Visconde de Santa Isabel e Mendes Tavares:


Barão de São Francisco: Trabalhador

Renascença

Samba

Clube

terça-feira, 4 de maio de 2010

Repetidas

As pernas cruzadas, sentado no chão. Coluna em curva acentuada, tapete forrado de papéis autocolantes, um carpete de escudos e uniformes. Movimento contínuo de olhos, mãos e caneta. Acerta-se a postura, estica-se uma, depois a outra perna: todas dormentes. Pequenos pacotes vermelhos que trazem perfis, que trazem nações: que trazem homens. Figurinhas são espelhos de espelhos, ali me vejo porque também me enxergo: figurinhas são poços sem fundo, de desejos. Ir à banca com moedas e voltar com sorrisos.




Tenho, tenho, tenho: não tenho. Mergulhei na infância simplesmente ao atravessar a rua e nadar até a banca, um pedaço de metal cercado de calçada por todos os lados. Outros metais redondos, sacados do bolso da bermuda, me fizeram embarcar num passado distante e recente. Colecionar recordações, álbum de infância, mas não de família. Entregar as moedas na mão do jornaleiro, esperar, ansioso, a troca patrocinada: pacotinhos brilhantes, estalando de novos, grudados uns nos outros. Um maço de jogadores e pátrias. Um caderno de nações e times, um livro ilustrado de títulos e eu me procurando na memória. Onde estava há quatro, oito, doze anos?




Abrir os pequenos envelopes vermelhos, como se fossem correspondências dos próprios jogadores. Rasgos no topo papel. Rostos desconhecidos e familiares, cores diferentes – de jogadores e bandeiras – e palcos de grama. Separo, portanto, todas as figurinhas pela ordem das centenas. Pernas cruzadas, coluna torta, pescoço duro: figurinhas repetidas.




Casa dos cem, duzentos, trezentos, quatrocentos. Casa dos seiscentos. Não agüento mais tirar o mexicano. Guardado? Quando chegar junho não vou suportar ouvir o nome deste jogador, certamente estará guardado na lembrança da troca, porque já consegui quem faltava oferecendo sua cara marcada por outra que sequer tivesse visto. Separadas as figurinhas das centenas, como se escolhesse feijões, agora a organização é por times, por seleções. E por emblemas.




Lembrei do filho de uma querida amiga, que, ora vejam, colou todos os jogadores argentinos de cabeça para baixo. Preocupada com a distração da criança, a mãe alertou: “filho, presta atenção! Você colou as figurinhas da seleção argentina todas erradas! Estão trocadas. E agora?” O filho, do alto de seus seis anos, explicou: “Não, mamãe. Colei certo. Fiz assim pra dá azar pra eles!” A gargalhada foi geral. Ponto pro Brasil.




Seleções definidas, hora de colar as figurinhas. Lembro de outra coisa: são autocolantes. Eu, que sempre não levei jeito para colagens e afins, obviamente confundi jogadores, troquei nomes, inverti placares. Mas nada perto de outros tempos, quando era necessário um tubo de cola Polar - ou Pritt – para grudar os rostos no álbum. Fazia uma lambança geral, exagerava na cola, molhava toda a página e o verso, atrapalhando a colagem de outra figurinha de outra seleção. Corria para o recreio, há vinte anos, e com o papel de caderno e uma caneta em punho, catava bolinhos de gente com bolinhos de repetidas. Tenho, tenho: não tenho! E que raiva daqueles que – sempre houve – acabavam rapidamente e completavam o caderno de jogadores antes de todos e batiam no peito pelo feito. Esses ainda existem.




Colecionar figurinhas me permitiu uma viagem no tempo. Para quem pensa que é besteira, coisa de criança: ainda bem! Para quem está revivendo o passado, para quem vai à praça no centro da cidade para, especificamente, trocar figurinhas: que bom! E para quem não faz uma coisa nem outra: que pena.




E me recordo quando ganhava figurinhas jogando bafo. Lamber a palma da mão ou colar chiclete, não importava, o negócio era conseguir quem não tinha, o lance era conquistar um pequeno campeonato em virtude de outro, muito maior. A copa do mundo das crianças nunca termina. O homem maduro é um álbum de lembranças, vitórias e derrotas.




Figurinhas repetidas.