domingo, 18 de julho de 2010

Sentidos

Passo firme. Sapatos lustrados, camisa engomada e respiração apressada. Calçada. O movimento dos braços uniforme, buscando equilíbrio no espaço, esquivando o corpo das crianças e das senhoras do bairro. Os carros espreguiçavam-se pelas ruas mal asfaltadas, esburacadas e carcomidas pelo peso dos caminhões e por outras tantas máquinas industriais motorizadas. Havia cavalos soltos no terreno ao lado da casa, mas não chegavam a ultrapassar as cercas. 




Era curioso como também havia tantos outros mundos naquele mesmo momento, tantas pessoas que também não ousariam cruzar os limites de ruas e avenidas. A vertigem que sentia ao caminhar para o escritório misturava-se às lembranças sem idade. Passava pelas vielas silenciosas e reparava com olhar minucioso os casebres vazios, os muros triscados, e pensava, chegava a murmurar para si, ali seria infeliz, naquela varanda choraria seus amores, naquele portão esperaria um sinal dela, naquela janela ela o veria vulnerável, ele a desvendaria por inúmeras noites, ela se entregaria por uma única vez. E mudava o rumo do pensamento sem mudar a direção da caminhada. Estava indo para o trabalho, mas dava voltas pela memória.





Lembrava das histórias contadas por seu tio. Quando ele e seu pai eram meninos, costumavam ir para a fazenda. A entrada da fazenda, o cheiro da fazenda, os portões, os currais e as histórias. Rapidamente voltou a si e continuou o processo contínuo de esticar a perna direita marcando o chão com o pé direito, pousando levemente, mas com determinação o calcanhar, seguidamente da sola grossa, e por fim o dedão, todo esse corpo de apoio envolto por um pedaço de algodão branco, enfiado num sapato de couro preto, lustrado, mas gasto e impreciso. Como o tempo.




As hastes dos óculos escorregavam pelo nariz. Ônibus enfurecidos zuniam pelas ruas no sentido contrário de seu destino. Saudades dos almoços de domingo na casa da avó. Semana que vem vou viajar. Hoje não. Essa música sempre toca quando eu passo por aqui. Controlo meus passos. Se pudesse, leria agora aquele capítulo que deveria ler à noite. Meu controle-remoto pifou, faz tempo que não escrevo, hoje eu corri, mas agora até o fim do ano ainda falta muito. Vou ouvir de novo essa música que não prestei atenção na parte que mais gosto.



Quantas vezes preciso rebobinar o filme para recuperar um frase que não ouvi, ou uma legenda que passou muito rápido. Umas cinco, dez vezes. Às vezes, eu até entendi o que foi dito, provavelmente em inglês, mas eu quero entender qual a lógica adotada pelo tradutor, então eu leio duas legendas em vez de uma, o que me confunde, o que me faz rever a cena, o que me permite reparar no que não vi – ou no que vi, mas não reparei.




Garrafas quebradas. Despachos. Pedras e limo. Voltam à cabeças dezenas de imagens da cachoeira e do rio. Da praia. Dos mergulhos. Minha barba está grande, o bigode ultrapassou meus lábios, outras palavras me fugiram, outras voltaram, e há as que ainda não vieram: ficaram.




Assisto a filmes no mudo, minha cabeça gira a mil: cem metros nem rasos nem profundos.



Mas precisos como meus passos.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Oito

Datas e nomes. Faz-se assim a memória do povo. Sofrido e injustiçado, sentindo na pele as agruras do tempo e do espaço. Oito anos sem Tim Lopes. Percebe-se que, no período após o assassinato brutal do jornalista e depois de outros assassinatos na cidade e no país, a sociedade ainda não definiu qual direção tomar em relação aos direitos humanos, estes, sim, inafiançáveis sob qualquer perspectiva. Acredito veementemente que a justiça é cega. E é na escuridão do equilíbrio e no clarão da razão que, percebe-se, a justiça também é surda. Oito anos sem Tim Lopes.




A progressão do regime para crimes hediondos. A frase, por si só, não mereceria que fossem tecidos sequer comentários ou ensaios. Qualquer crime contra a vida, para não citar (ainda) outros, é hediondo. Oito anos sem Tim Lopes. Além do repórter, outras pessoas de bem também foram brutalmente assassinadas. Famílias, dilaceradas. Dor. Assassinato, tortura ou qualquer outra violência física premeditada (ou não) devem ser considerados crimes graves e sem direito à fiança. Mas já o são! – ponderariam uns. O que é preciso é mudar as leis - diriam outros. Ainda: se não houver mudanças no Legislativo, qual crítica a aplicar-se ao Judiciário? – concluiriam os que ponderaram. Pois bem. Dai a César o que é de César. E a César o que é de Deus. O que é do povo. Oito anos sem Tim Lopes. A sociedade, principalmente a juventude, tem nas mãos o poder da mudança, mas não constrói a mudança do poder. Sofremos um tipo de preguiça social. Cobrar dos administradores públicos e autoridades é dever do cidadão, mas também é obrigação dele exigir a aplicação da lei. Oito anos sem Tim Lopes. Só queremos que a pena dada a assassinos frios seja cumprida. Queremos que os réus sejam culpados e sejam punidos. Mas agora, inacreditavelmente, temos que querer o (não mais) óbvio: que o preso fique preso. A progressão do regime só é discutida após fugirem os beneficiados. Os assassinos. Os torturadores. Os condenados. Contrariando o ditado: só a depois da porta arrombada é que coloca-se o cadeado? Não temos cadeados.




Oito anos sem Tim Lopes. E o que se não falou até agora, é que o benefício da progressão encoraja, ainda que veladamente, bandidos a cometerem crimes de maior violência. Financiamos a consciência do criminoso, instruímos o bandido a “melhor” maneira de praticar um delito na medida em que os amparamos com advogados que, pelo argumento do protocolo do ofício, lhe garantem o direito de defesa. Os praticantes de crimes hediondos, com aquele raciocínio típico (sim, eles raciocinam mais do pensam): se for me sujar, não será por pouco. Porque o ladrão de galinhas, ao ser preso, é julgado e condenado. Cumpra-se a lei. Já o ladrão de vidas é preso, julgado e condenado. Oito anos sem Tim Lopes. Depois segue o caminho inverso: é condenado, novamente julgado e solto. Por bom comportamento. Quer dizer, bom só depois de ser preso. Então, para andar livremente pelas ruas, o golpe é praticar um crime (hediondo, para não deixar dúvida), fugir, manter-se no anonimato, ser preso, daí a ser julgado novamente, condenado, daí a portar-se bem e ser beneficiado pela progressão de regime: o semi-aberto ou a liberdade condicional. Aí, vai e não volta. Aí, denuncia-se pela imprensa. Depois da denúncia - mas antes do esquecimento – o condenado é recapturado, julgado, condenado (mais uma vez) e preso: escreverei essas mesmas palavras, andarei pelos mesmos círculos? A tontura social casa e desnorteia. Oito anos sem Tim Lopes. Sigamos em frente, pai.






Quando alguém é assassinado, seus amigos e familiares também morrem. Não a morte física. Nem toda morte violenta é física. Mas a lembrança e a saudade são mortes diárias, lentas: são feridas. Quando parte de nós morre, aos poucos, mesmo com a superação do trauma – e nunca o esquecimento – o sofrimento fortalece. Mas quando algum assassino é solto, ou como se prefere dizer, é beneficiado pela progressão de regime, familiares e amigos da vítima sofrem, mais uma vez, (e todas as outras que vieram antes, por conta do sopro das recordações) e, estes sim, voltam às prisões do tempo: o medo. A dor. Somos condenados eternamente a vivermos sob revolta e tristeza, acompanhando sempre a gangorra de processos, recursos e revisões. Uma lavagem cerebral eterna, com mergulhos no passado sofrido, que dói, que fere: que não acaba nunca. Somos sacudidos pela fúria da nossa dor, somos resumidos a réus, promotores e juízes. Não temos defesa. Presenciamos condenações rigorosas, mas a lei é condenável. São muitos julgamentos e pouco(s) caso(s).




Tim Lopes foi assassinado e sua morte abriu uma ferida na sociedade, na imprensa e na administração pública. Repercussão internacional. Repercussão eterna. Um divisor de águas na maneira de se cobrir a violência em grandes centros urbanos, afastados socialmente das periferias, mas bem próximos geograficamente. A partir de sua morte soubemos ao que gente de bem, que mora em favela, é submetida. Soubemos como o jornalista foi (pode ser) afrontado. Uma tentativa de calar a imprensa: de calar o povo. E é o povo que deve espernear e brigar contra a progressão de regime em casos de crimes hediondos. Oito anos sem Tim Lopes. O que se protesta e pleiteia é que a lei seja cumprida, que a lei valha, também (e principalmente), depois da condenação:que a lei valha depois da condenação. Porque a condenação vale é por causa da lei. Mas no Brasil a lei tem validade, ela expira. A lei serve para condenar o réu, mas não mantém o réu preso. Isso não consta nos autos.




Vivemos num regime de progressões – e não numa progressão de regimes. Cometer crime, hoje em dia, é quase um deslize, uma falta de sorte. Uma lástima. Quase precisamos pedir desculpas por termos sofrido algum tipo de violência em nossa família e ainda precisamos sofrer outro tipo de violência, a surda, que nos esbofeteia a cara com o benefício da progressão de regime a assassinos, a redução da pena e, consequentemente, a estagnação do processo. A mobilização para a mudança na lei começa onde termina a última frase do jornal. Não saímos do lugar, mas reclamamos da nossa posição. Falta tempo ou espaço? Precisamos fazer alguma coisa.





Oito anos sem Tim Lopes.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Segundas

Marquês de São Vicente;
Quatro, três, dois:


Padre Leonel Franca, Visconde de Albuquerque, Ataulfo de Paiva e Visconde de Pirajá;

Gomes Carneiro, Francisco Sá, Nossa Senhora de Copacabana e Princesa Isabel;

Lauro Sodré, Venceslau Brás, Pasteur e Pedro Álvares Cabral:

Praia de Botafogo;

Santiago Dantas, Pinheiro Machado, Ipiranga e Laranjeiras;

Santa Bárbara, Catumbi, Salvador de Sá e Estácio de Sá:

João Paulo I, Doutor Satamini, Professor Gabizo e Mata Machado:

Maracanã;

Varnhagem: Felipe Camarão e Boulevard;

Barão de Drummond, Visconde de Santa Isabel e Mendes Tavares:


Barão de São Francisco: Trabalhador

Renascença

Samba

Clube

terça-feira, 4 de maio de 2010

Repetidas

As pernas cruzadas, sentado no chão. Coluna em curva acentuada, tapete forrado de papéis autocolantes, um carpete de escudos e uniformes. Movimento contínuo de olhos, mãos e caneta. Acerta-se a postura, estica-se uma, depois a outra perna: todas dormentes. Pequenos pacotes vermelhos que trazem perfis, que trazem nações: que trazem homens. Figurinhas são espelhos de espelhos, ali me vejo porque também me enxergo: figurinhas são poços sem fundo, de desejos. Ir à banca com moedas e voltar com sorrisos.




Tenho, tenho, tenho: não tenho. Mergulhei na infância simplesmente ao atravessar a rua e nadar até a banca, um pedaço de metal cercado de calçada por todos os lados. Outros metais redondos, sacados do bolso da bermuda, me fizeram embarcar num passado distante e recente. Colecionar recordações, álbum de infância, mas não de família. Entregar as moedas na mão do jornaleiro, esperar, ansioso, a troca patrocinada: pacotinhos brilhantes, estalando de novos, grudados uns nos outros. Um maço de jogadores e pátrias. Um caderno de nações e times, um livro ilustrado de títulos e eu me procurando na memória. Onde estava há quatro, oito, doze anos?




Abrir os pequenos envelopes vermelhos, como se fossem correspondências dos próprios jogadores. Rasgos no topo papel. Rostos desconhecidos e familiares, cores diferentes – de jogadores e bandeiras – e palcos de grama. Separo, portanto, todas as figurinhas pela ordem das centenas. Pernas cruzadas, coluna torta, pescoço duro: figurinhas repetidas.




Casa dos cem, duzentos, trezentos, quatrocentos. Casa dos seiscentos. Não agüento mais tirar o mexicano. Guardado? Quando chegar junho não vou suportar ouvir o nome deste jogador, certamente estará guardado na lembrança da troca, porque já consegui quem faltava oferecendo sua cara marcada por outra que sequer tivesse visto. Separadas as figurinhas das centenas, como se escolhesse feijões, agora a organização é por times, por seleções. E por emblemas.




Lembrei do filho de uma querida amiga, que, ora vejam, colou todos os jogadores argentinos de cabeça para baixo. Preocupada com a distração da criança, a mãe alertou: “filho, presta atenção! Você colou as figurinhas da seleção argentina todas erradas! Estão trocadas. E agora?” O filho, do alto de seus seis anos, explicou: “Não, mamãe. Colei certo. Fiz assim pra dá azar pra eles!” A gargalhada foi geral. Ponto pro Brasil.




Seleções definidas, hora de colar as figurinhas. Lembro de outra coisa: são autocolantes. Eu, que sempre não levei jeito para colagens e afins, obviamente confundi jogadores, troquei nomes, inverti placares. Mas nada perto de outros tempos, quando era necessário um tubo de cola Polar - ou Pritt – para grudar os rostos no álbum. Fazia uma lambança geral, exagerava na cola, molhava toda a página e o verso, atrapalhando a colagem de outra figurinha de outra seleção. Corria para o recreio, há vinte anos, e com o papel de caderno e uma caneta em punho, catava bolinhos de gente com bolinhos de repetidas. Tenho, tenho: não tenho! E que raiva daqueles que – sempre houve – acabavam rapidamente e completavam o caderno de jogadores antes de todos e batiam no peito pelo feito. Esses ainda existem.




Colecionar figurinhas me permitiu uma viagem no tempo. Para quem pensa que é besteira, coisa de criança: ainda bem! Para quem está revivendo o passado, para quem vai à praça no centro da cidade para, especificamente, trocar figurinhas: que bom! E para quem não faz uma coisa nem outra: que pena.




E me recordo quando ganhava figurinhas jogando bafo. Lamber a palma da mão ou colar chiclete, não importava, o negócio era conseguir quem não tinha, o lance era conquistar um pequeno campeonato em virtude de outro, muito maior. A copa do mundo das crianças nunca termina. O homem maduro é um álbum de lembranças, vitórias e derrotas.




Figurinhas repetidas. 

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Escombros

De repente, breu. Pedaços de concreto caíram sobre mim, mas por uma matemática da sorte, eram grandes, eram enormes, e por isso não me caíram sobre a cabeça. Mas desmoronaram sobre meus sonhos. Tenhos os pés presos e as mãos imobilizadas. Respiro terra e aspiro luz. Ouço vozes de quem? A água penetra pelas fendas dos escombros, a chuva não desiste, e penso porque não se dá o troco, porque não chove terra pra cima. Rastejo pelo chão de tijolos quebrados e vergalhões enferrujados. Não eram vozes, eram roncos de máquinas. E essas máquinas funcionam como parteiras, pois me dão à luz pela segunda vez na vida. Não imaginava que parafernálias feitas para destruir construções serviriam para me trazer a vida – mais uma vez. Sobrevivo com goles de esperança, a conta gotas, quando me abrem espaço entre pedras maiores, telhados despedaçados e janelas que não abrem mais. Cortinas que se fecham .






Não há tempo. Silêncio. Rápido. É preciso pisar leve sobre o monte de terra. O monte de lama. De lixo. É preciso sutileza para pisar sobre gentes. Nunca tinha visto avalanche de corpos invisíveis e seus destroços. É complicado passar pelas mães sem filhos. É difícil passar pelas mães com filhos. Mas no percurso da tragédia, não há diferença. Escavar a terra em busca de esperança. Quantos enterros serão necessários para a mesma pessoa? Perde-se tudo. Meu trabalho é importante, volto à realidade, não posso emocionar-me. Não aqui. E continuo a caminhada pelos escombros, pedaços de concreto, lajes quase inteiras no chão, terraços debaixo da terra. A vista de onde estou é cega, não há sentido na dor. Não há equilíbrio ao passo que vejo mãos pra fora do chão, pernas para dentro do solo, metade de pessoas embaixo da terra, metade no pé do morro. É triste olhar de cima e ver todos os parentes, vizinhos, rostos aflitos esperando por milagres. O céu tem cor de lama e não há chão que suporte o cheiro de morte.





Minha força arrebenta tudo que vem pela frente. Aliás, tudo que está na minha frente, porque quem vem, sou eu. Arrasto árvores, construções e crianças. Permito que alguns escapem, mas minha língua úmida e ácida não poupa nem infâncias nem velhices: desconstrói vidas. E durante a enxurrada humana, ouço gritos abafados. O calor da terra me queima o corpo, mas nem por isso deixarei de escorrer minhas lágrimas salgadas: eu broto das nuvens carregadas pelas previsões. Profecias. Ao descompor-me em relâmpagos líquidos, parto em raios a insatisfação da natureza: enterro vivos os vivos.





Ao descarregar-me do alto, me distribuo em lascas d´água sobre os amontoados de terra e lixo. Deslizo entre raízes mortas e troncos podres. As pedras, prestes a desfilarem sem ordem morro a baixo, me impedem de transportá-las pelo curso da previsão: imprevisto, portanto. O cheiro de lixo e o gosto da terra atravessam corpos soterrados pelo susto, atropelados pela dor: abandonados pela vida. O pouso do céu em pistas verticais destroça lares e famílias. Corações sujos de lama.





Feridas nos braços e pernas. Rosto empoeirado pelo cimento seco. Ossos quebrados, sei porque os sinto. Mãos dormentes, sei porque não as sinto. Ouço pedidos de silêncio sobre mim, mas não ouço silêncio. O que sobra aos ouvidos são estalos de estruturas e o córrego de lixo flutuante. Chove novamente, mas espero que pisem por aqui, espero que me achem, espero que eu me ache, porque me perdi na escuridão dos escombros. Árvores envelhecidas pela água podre, desprendidas do solo, cambaleiam pelo barranco onde antes fiz meu lar, porque não tinha onde morar. Habito, portanto, outras vidas dentro da minha, que são meus filhos. Não sei onde estão. Não sei, mas sei que os sinto.






Anos de trabalho, por isso escolhi salvar vidas. Meu suor da testa impede que a chuva nos vença. São águas diferentes, mas comigo caminham de mãos dadas. É difícil esperar que essas aranhas metálicas gigantes, que chamam de escavadeiras, localizem vidas. Aqui do alto, em cima de uma delas, sou um pescador humano. Procuro pelo mar de lama, em meio à ressaca, com o olhar atento e triste, alguém que esteja mergulhado entre lajes e concreto. As pás dessa parafernália servem como anzóis de esperança, enferrujados pela cachoeira dos céus, mas que podem fisgar corpos quase vivos – ou quase mortos. Minha profissão serve para curar feridas do homem causadas pelo homem. Ferir-se é especialidade humana.



Culpa da natureza?

terça-feira, 23 de março de 2010

Nascimentos

"Os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim quando a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos." 


- Gabriel García-Márquez em "O Amor nos Tempos do Cólera"

(para Braz Silva)


O primeiro dia que entrei numa redação de jornal foi diferente do primeiro dia que entrei numa redação de televisão. Não pela idade, porque todos somos crianças quando fazemos uma coisa pela primeira vez. Mas era novo quando me abriram as portas daquela sala imensa, hoje localizada num prédio abandonado na zona portuária da cidade. Reparei logo naquelas pessoas que corriam por entre as baias e máquinas de escrever. Todos tinham cara de sono. Era um domingo. Tinha jogo no Maracanã. Esperava sentado na cadeira, com uma esferográfica na mão, e rabiscava matérias fingindo ser repórter. Do outro lado da redação, via meu pai gesticulando numa roda próxima ao café. Eu continuava a escrever rabiscos. Percebi depois que teria mais graça datilografar do que escrever à mão, mas, ora, tinha que aproveitar a oportunidade: aprender a escrever com gestos.






Anos mais tarde, conheci o Braz Silva. Foi o segundo primeiro dia que entrei numa redação. Era um homenzarrão, devia estar com mais de setenta anos, mulato, voz firme e sorriso vazio. Coçava a cabeça quando não estava certo de alguma coisa. Mas quando tinha certeza de outra, levantava e abaixava a cabeça lentamente, fechando brevemente os olhos e abrindo um pouco a boca, projetando levemente o queixo para frente, com os óculos de lentes grossas deslizando pelo nariz, como se a serenidade escapasse por entre os poucos dentes. Alô, alô, câmbio. Respondia assim aos chamados de quem conversasse com ele por entre ondas sonoras. Não esqueceria nunca daquele dia, uma sexta-feira, quando debutei numa sala de polícia de redação, para uns, escuta, para outros, apuração. Para todos: profissão. A falta de sintonia dos rádios, as pequeninas televisões aos berros, as maiores mudas, as pessoas correndo por entre as baias e computadores, não mais máquinas de escrever. Se bem que computadores não deixam de ser máquinas - que não deixam de escrever. Peguei a primeira esferográfica que encontrei e deixei a que trouxe de casa na pasta, porque não tinha graça escrever de casa, escrever com a casa nas mãos, que ali era a caneta, e rabisquei qualquer coisa fingindo ser repórter. Fingindo ser criança. Do outro lado da redação, não via meu pai gesticulando numa roda próxima ao café. Mas eu continuei a escrever qualquer coisa, liguei a máquina de escrever que agora chamava-se de computador. As pessoas que corriam por entre as baias também tinham cara de sono. Mas eram outras pessoas, eram outros tempos. Era outro, mas não deixava de ser eu.





Descemos e fomos almoçar no refeitório do jornal. Vazio. O barulho dos metais percorria o salão das refeições enquanto meus olhos percorriam as paredes do salão, enquanto meus ouvidos prestavam atenção em tudo que eu não podia ver. As bandeijas eram pequenas e honestas, os talheres desafinados mas limpos, nem tão limpos. Mas cortavam a carne. O pão dormido e as pessoas com cara de sono. Antes de ter tempo para lembrar, meu pai brincou comigo ao perguntar se aquele almoço matinal não me lembrava os almoços do colégio. Não pelo horário, porque todos almoçamos cedo quando crianças. Mas, pela segunda vez na vida, e não haveria de ter outras oportunidades, eu matava a fome na bandeija. Meu pai me disse que durante sua infância ele matava a fome com sonhos e comida. Então percebi que comer é caminhar para alcançarmos a nós mesmos. Aos nossos sonhos. Porque todos somos crianças quando fazemos uma coisa pela primeira vez. Percebi que estudava em dois colégios.





Eu gostava de chegar mais cedo para conversar com o Braz. Na verdade, ele saía quando eu entrava, eu era sua rendição. Então, gostava de chegar mais cedo por dois motivos: para conversar com o Braz e para rendê-lo. Mas funcionava bem o esquema, um iniciante na profissão e um veterano de guerra, com perdão do trocadilho. Ele me relatava resumidamente o que tinha se passado de madrugada. Mas tinha o costume também de relatar o que não tinha acontecido na mesma madrugada. Com detalhes. E quando me contava o que ainda iria acontecer, não necessariamente na madrugada, era quando eu entrava em pânico. Braz me tranquilizava, dizendo que as coisas sempre acontecem, mesmo que a gente não saiba. E quando ninguém sabe de nada, não necessariamente na madrugada, dificilmente algo acontece. Perguntou-me se eu tinha entendido. Dizia que sim, para que continuasse a conversa. Se dissesse que não, poderia perder a paciência ou deixar o assunto de lado. As pessoas costumam fazer assim. Dizem que entendem para seguir viagem.





Para todos os efeitos, algumas previsões do sábio repórter se davam, outras também. Nunca errava. O que me chamava mais atenção era sua tranquilidade diante das mortes que apurava, dos crimes que escrevia, mesmo contaminado pelos berros dos que tinham cara de sono, pelo barulho covarde das televisões sintonizadas no mesmo canal, como se vivêssemos numa dieta intelectual rígida. Sua serenidade em desligar-se da fábrica sem deixar de finalizar o produto. Era outra pessoa de outro tempo. Mas eu também era outro, mesmo sem deixar de ser eu.





Arroz, legumes pálidos e um pedaço de carne. Refrigerante não havia, apenas suco, ou melhor, como costumava dizer meu pai: refresco. Suco é natural. Levou tinta, é refresco, mermão. Tudo bem. Voltemos à bandeija, aos talheres, ao salão. À refeição. Despreocupadamente terminava o almoço, lembro que demorei a comer para observar os outros que estavam comendo, prestava atenção às conversas nas mesas. Não cheguei a calcular o tempo que levava o trajeto da comida à boca, porque o garfo servia também como caneta, não porque escrevia com aqueles dentes metálicos, mas porque anotava com meu gesto, premeditadamente ensaiado, todo os movimentos ao redor da mesa, enquanto meu pai reparava que eu reparava tudo a meu redor. E ainda: ele percebia que eu disfarçava minha curiosidade inventando velhos hábitos à mesa. Novos hábitos, portanto.





Certa vez, décadas atrás, Braz trabalhava num jornal de pequena expressão. Naquele tempo, eram poucas as redações que dispunham de carros de reportagem. A Baixada Fluminense era, toda, uma cidade imensa. Erma. Uma cidade que tinha várias cidades dentro. Os repórteres de polícia costumavam caçar matérias em lugares afastados do centro urbano, talvez por isso a cidade das cidades tivesse sempre casos interessantes. Os jornalistas, portanto, combinavam um horário e dividiam um táxi a caminho da metrópole suburbana dos casos policiais. Quatro jornalistas. Quatro histórias. Um táxi. Era jogo, porque o repórter saía da redação sem nada, apurava uma matéria e voltava com outras três. Naquele dia, ao desembarcarem em Queimados, não lembrava ao certo, Braz e seus colegas de outros jornais, se dividiram pela região. Percorreram algumas favelas e delegacias. Ouviram. Anotaram. Perguntaram de novo. Anotaram. Fim do dia, ponto de encontro, outro táxi para quatro veículos.






Acomodaram-se nos bancos e começaram a trocar informações durante o trajeto de volta ao centro. Um a um, os repórteres se valiam de seus feitos, vangloriavam-se de suas apurações: “Fiz um homicídio de uma mulher! Tenho todos os detalhes!” ou “Aquela chacina foi boa, uma família inteira, rapaz. Mas a mãe não quis me receber, disse que tinha medo.” Ou ainda: “não consegui nada de bom, só um assaltozinho na padaria, não dá pra muita coisa...”. Mas não houve melhor: “Ih, mais um estupro. Toda vez que venho aqui, faço unzinho. Juntando com os últimos, dá pra fazer render. Já imagino a manchete...” e risadas e mais risadas. Foi quando o motorista do táxi, aflito e temeroso com os primeiros casos, não teve mais dúvida da corja que transportava em seu veículo, comprado com dinheiro honesto, e, tremendo de medo e apavorado com o que poderia acontecer consigo, afundou o pé no acelerador e tomou uma reta sem freios. O carro invadiu a delegacia da beira da estrada, na saída de Queimados, e o motorista saiu do táxi pedindo ajuda, chorando, nervoso, desesperado, implorando para que alguém intervisse, que estava com quatro assassinos, com quatro maníacos, quatro criminosos. Quatro histórias. Um táxi . O delegado do distrito, ao sair para ver a confusão, reconheceu os jornalistas e bradou: “quanto tempo, rapaziada?! Já querem minha ajuda? Qual foi o crime dessa vez?” O taxista, desnorteado, e pasmo pelo que acabara de ouvir do policial, virou-se para o delegado: “não é possível! até o senhor, doutor?!”





Os domingos com meu pai eram sempre os mesmos. Ainda bem. Depois do almoço, tinha jogo. Antes também. Chegar na redação era clássico. Depois do bandeijão do prédio hoje antigo, tinha almoço em outras redações. Não fui a muitas, mas apenas duas foram as primeiras. A minha profissão tem vários inícios, muitos meios. A minha profissão tem fins.






O primeiro dia que entrei numa redação de jornal foi diferente do primeiro dia em que nasci. Não pela idade, porque todos somos crianças quando fazemos uma coisa pela primeira vez.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Sólidos

O vento quente lhe queimou a fronte e o calor era tanto que suas pupilas arderam sem trégua. Não adiantou esfregar as pálpebras, mas também não adiantaria mais, pois as solas dos pés em carne-viva lhe tiraram o refresco das cascas que se fizeram perto dos calcanhares e dedões. O pescoço ardia como tivesse sido incinerado por chamas imaginárias da cachaça, chegou a pensar que tinha derramado a aguardente na nuca por descuido, mas viu que estava sem ação, deitado sobre uma frigideira gigante, com a pele grudada na superfície fervida pelo sol. A boca ferida pela brasa ainda doía, mas o vapor do asfalto quente e o suor da testa lhe condensavam qualquer raciocínio e lhe cegavam a razão, se é que ainda havia, de modo que só depois de intermináveis segundos deu-se conta que havia desmaiado no meio da rua. Estava esparramado no chão e todos em volta lhe chamavam bêbado e vagabundo, além de lhe apontantarem dedos, e foi castigado com uma saraivada de cuspes, xingamentos e pontapés. Vivia a solidão do tumulto.




Os pequenos ferimentos nos joelhos e canelas não lhe tiravam a força das pernas. Eram finas, mas fortes: eram sólidas. As veias saltavam na pele queimada de seu corpo castigado pela miséria. Dobrava o indicador e batia na porta de restaurantes e botequins à espera da sobra. Era quando abria aflito a embalagem de papel laminado, catando pedaços de carne com as mãos, dobrando o papelão que antes serviu de tampa, transformando-o numa colher de papel, olhando rapidamente para esquerda e para direita, à espreita de não se sabe o quê, mas ele sabia, ora, então não importava que não soubessem outros. O saco de lixo se abre e do fundo surge a garrafa de água mineral com outro líquido dentro. A fumaça espessa do cigarro aceso e barato arrematava o ritual com o gole curto da cachaça envelhecida pelos bueiros, e não tonéis, mas ambas deterioradas pelo tempo. Morriam três fomes.




Os pés descalços caminhavam entre cacos e farpas e sentia na sola grossa os calores do sol e da terra. A água suja e escura das poças intermináveis dos asfaltos lhe aliviava a pele maltratada pelas pedras das calçadas. O rosto sujo afastava quem passasse, mas gostava disso, pois seus dentes podres não lhe permitiam viver de fome, por isso bebia sonhos engarrafados.





Vagava pelas ruas, equilibrando-se em postes e canteiros, ao passo que tropeçava sempre no saco plástico onde levava a aguardente e restos de jornais velhos. Carregava a vida nos ombros. Dormia em qualquer canto, debaixo da marquise mais vazia, com menos gente como ele, quantas pontes não lhe serviram de teto e quantos caixotes não lhe serviram de mesa. Quantos sonhos não lhe serviram de chão? Tragava mais uma e limpava a boca com as costas da mão, depois de grunhir alguma coisa, e o riso fabricado pela cachaça lhe rompia a boca ferida pela brasa da guimba. Costumava adormecer bêbado com o cigarro aceso, por isso fumava dormindo.



Lembrou dos pedaços de serpentina, das tintas borradas no rosto e confetes feito chuva de cores. Mas permanecia vencido no chão. Trapos, latas e sacos plásticos. Lenços, chapéus e véus, perucas desfiadas pelo calor. Camisas rasgadas e sorrisos também. Os galhos das árvores do parque eram seus cabides. Estirados ficavam apenas os lençóis imundos e dilacerados por causa das disputas pela sombra. Então seus olhos se perderam no fim da tarde porque não sabia mais qual dia terminava e qual estava para começar, diferença portanto não fazia mais, então olhou as estrelas que mais pareciam confetes de luz, como nos carnavais que viveu até ali. E não esqueceria nunca quando lhe disseram que sua vida era uma fantasia. Suas vestes e seu bafo, seu cheiro de morto, seu sorriso triste e sincero, seu peito ferido e seu corpo abandonado. O passado era sólido.




Por isso não tinha sonhos.