"na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a
minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois,
a minha irmã mais velha
casou-se.
depois, a minha irmã mais nova
casou-se.
depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr
a mesa, somos cinco,
menos a minha
irmã mais velha que está
na casa dela,
menos a minha irmã mais
nova que está
na casa dela, menos o meu
pai, menos a
minha mãe viúva. cada um
deles é um
lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho.
mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr
a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de
nós estiver vivo, seremos
sempre cinco."
- José Luís Peixoto
Maria do
Carmo, muito prazer. Com quase noventa anos, minha avó cumprimenta a todos
desconhecidos dessa maneira. Pode ser amigo meu ou o fulano da esquina. A
maneira frágil de se locomover e de se manifestar contrasta com a doçura e a maciez da voz – e das mãos – ao dar carinho
a algum neto, a um filho ou aos, agora, bisnetos. Do sotaque carregado gaúcho,
como sór quente e aróz. Mas sei que ao
me ver, ela vê meu pai. Ela vê em mim o filho que morreu. Ela vê em mim o filho
que não morreu. Ela me vê e me vê também. Ela não me vê e me vê também. Ela vê
meu pai vivo em mim. Ela nos vê e nós a vemos hoje. Porque é dia dos pais e
porque é o dia dela. Eu acho que os dias dos pais são da minha vó. E não se
trata de prestação de contas ou aceitação da realidade viva, da realidade
morta, da realidade moribunda. Para mim, os almoços de domingo serão sempre
dias dos pais. Meu avô Argemiro, minha avó Maria do Carmo, meu pai Arcanjo,
minha mãe Sandra, minha tia Cléa, minha tia Tania, meu tio Miro, meu tio Ailto,
minha prima Joana, minha prima Maria Julia e suas filhas, Leticia e Luiza, e
todos nós que cabemos naquele apartamento, que é do tamanho do coração da vovó.
É dia dos pais e eu acabei de acordar. A casa mais vazia e o cachorro no pé da cama. São onze da manhã e vou almoçar na minha avó. O último dia dos pais que passei com o meu foi há mais de dez anos. Naquele domingo decidimos almoçar na Feira de São Cristóvão. Meu pai não era do tipo de almoçar em lugares caríssimos para justificar a data. Tampouco achava que o dia havia sido criado pelos porcos capitalistas de nossa burguesia estúpida. Meu pai não vinha com esse papo todo. Simplesmente olhava pra mim e arriscava: “Irmãozinho, esse negócio de almoço especial não tá com nada. O que eu queria mesmo era ir pra São Cristóvão, almoçar na feira, beber uma gelada contigo beliscando uma carne de sol, manteiga de garrafa... Como você tá nessa onda de forró, de repente era uma, não era, não?”
Como recusar, pai?
E fomos. Eu havia acabado de completar dezoito anos. Meu pai completaria cinquenta meses depois. Passeamos pelos corredores da feira, cheiro de cerveja no chão, bêbados derrotados pelos becos, forrós e xotes se confundindo pelos ares e ouvidos, e eu pela primeira vez andava ao lado de meu pai sem segurar sua mão. Nenhum de nós disse nada, mas ali percebi que me tornava um homem. Pois beberia a primeira cerveja com meu pai; pois ouviria pela primeira vez os problemas de meu pai; e pela primeira vez, com meus cabelos crespos, olhos curiosos e camisa do Bob Marley, olhei pra ele e disse: você é mais que meu pai, você é meu amigo.
Em seguida apareceu um cara com uma polaróide. Tiramos a foto instantânea. Não saímos tão bem: eu fiquei com cara de doidão e meu pai saiu meio gordo. Quer dizer, a foto reproduziu fielmente nossas imagens, mas torcemos o nariz para o resultado final. E penso, hoje, que a vida é assim mesmo.
Aliás, vó: feliz dia dos pais! Te amo e já estou indo filar a boia.







