quarta-feira, 28 de março de 2012

Quinze anos

Rio, 13/05/1997
Bruno,
Acho que estamos sem nos falar (e de repente, com uma visão estranha um do outro), por muitos mal-entendimentos (por minha e por sua parte).


Tudo começou porque nós “acabamos” (o que na verdade por nossa parte nem começamos) numa boa. Eu realmente tinha achado que você tinha feito “coisas” ridículas comigo (que não vem ao caso). Desde então, o clima se modificou totalmente, mas ainda nos falávamos bem. Foi aí que me falaram que você disse umas coisas sobre mim aos meninos (fiquei muito chateada, mesmo sem saber o que você havia falado, mas sabia que era alguma coisa ruim e aí te achei mais ridículo ainda). Daí em diante, eu já não conseguia falar com você como antes, parecia que havia uma barreira. Então, nós fomos nos falando cada vez menos até parar, eu pensei que você não queria mais falar comigo e você achou que eu não queria mais falar com você, foi um mal entendido, mas já estava se acumulando com tudo. Agora, além de todos esses mal-entendidos, o pior de todos não ocorreu (ou pelo menos é o que eu acho) eu não queimei seu filme com ninguém (principalmente com gente da 7ª série, como eu poderia  se eu nem conheço?), aliás pensei que você estivesse queimando o meu com seus amigos...
Quero te explicar o que houve:
As únicas pessoas que eu falava que fiquei chateada com você eram Carol, Cacá, Ana Cristina, Bruna, Bianca, Andréa e Ana Luisa (que até algumas vezes me ajudaram a enxergar na época que eu estava chateada, antes de acabar). Eu falei para elas que eu fiquei chateada com você porque quando estávamos “ficando”, você falava mais com a Carol do que comigo (e isso você sabe que era verdade), aí chegava na hora da saída, fora do colégio, e você me beijava, e que fiquei muito confusa ( e até pensei que você tivesse vergonha de mim, apesar de não ter dito isto a ninguém, só a Carol).
Agora vou te falar porque eu disse tudo isso a elas, afinal não foi por nada:
Elas perguntaram por que nós não estávamos namorando (porque terminamos) e por que não nos falávamos mais (que nem eu sabia responder), daí eu falava aquilo. Cada vez me confundia mais. Por causa disso eu até fugia do assunto Bruno (foi mal) porque não queria ficar comentando com ninguém. Outra coisa, tudo que eu falava no meu grupo, elas concordavam ( e eu só falava quando alguém tocava no “assunto”) e até falaram coisas, que não partiam de mim, mas que em algumas vezes eu concordava, por exemplo, como perdeu o “encanto” (não por minha causa, aliás nada comigo). E também falam muito bem, como a Andrea que disse:
 - “Ah,! Ele é super legal, você não acha?” 
 Daí eu nem contestava e logo falava:
 - “É até pode ser, mas comigo ele não fala mais, não posso dizer se sim ou não.”
Quando eu estava com raiva, dizia que você era “chato” comigo (e deixava isso bem claro: “comigo”) mas alertava que era porque eu estava com um pouco de raiva. Ah! Lembrei de uma opinião geral que não partiu de mim, mas que por parte eu concordei, foi que você é um “grude”.
Agora pra falar verdade era impossível eu queimar seu filme com pessoas além dessas (que mesmo assim não acho que eu queimei, pelo contrário, pois eu não conheço “praticamente” ninguém do colégio, as minhas amigas então, muito menos. Era bem mais fácil você queimar o meu filme, você era mais “conhecido” na sala do que eu. A partir do momento que não nos falamos mais, meu filme já estava queimado. Em relação à 7ª série (que você conhece algumas garotas) era impossível te queimar, eu nem conheço ninguém de lá, era impossível eu falar com elas. No entanto, te peço 1000 desculpas se você ainda acha que eu queimei seu filme com o pessoal, realmente não tive a menor intenção e eu acho que há pessoas que aumentam muito (tipo: escutam A, B, e te falam “A”, “B”, “C”, “D” e “E”). Agora se você não quiser minhas desculpas e não quiser acreditar em mim, aí eu não tenho mais o que fazer. Espero que tudo se esclareça e que voltemos a nos falar.
(Responda por favor)
OBS: Eu também falei pras meninas que uma vez quando nós falamos no telefone, você falou (ou melhor, perguntou) se rolaria alguma coisa, se você não tivesse sido ridículo, daí eu falei que não, porque não tinha nada a ver e que também nós éramos da mesma sala, ou também falei que isto era uma desculpa, porque eu não queria mais por causa daquilo e não conseguia me ver em outra situação, daí ela falou que se não rolou uma vez é difícil (ou não) rola outra vez. Eu também disse só a algumas meninas que uma coisa me irritava era que você sempre falava: falaram, alguém disse... (nunca dizia quem). E outra coisinha: não me elogiava, só se elogiava (sem querer ofender), me irritava.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Carnaval

A manhã lilás e o ar parado.  Janelas suadas. Ar condicionado.  Tapete e almofada. Televisão sem volume. O som do jornal arremessado à porta. O teto reconhecido de baixo. O chão desconhecido no pé.  A visita anunciada do sol: era sábado.

Os estalos das articulações. O espreguiçar curto da pressa. Fontes de energia. Bateria. Celular. Computador. Pão. Queijo. Presunto. Cheiro de café do vizinho. Água de coco e daquela que matou o guarda. Passarinho tá com sede: é sábado.

Óculos grandes, peruca, chinelos. Telefonema. Garrafas plásticas. Gelo. A manhã rosada e o ar lento.  Janelas abertas. Música. Rádio: volume sem televisão. O jornal folheado às pressas. O teto testemunha de cima. O chão redesenhado à risca. A luz intermitente do sol: sou sábado.

A chave de casa no bolso, o gole de gelo na boca, o soro pingado nos olhos: a vista recuperada do susto. A bolsa no colo, o porteiro com sono sorri, o portão da garagem sem medo: o retrovisor do carro sem nó. A manhã alaranjada e o ar desordenado. Janelas sem vidros, tanque sem gás: o jornal pelo rádio sem som. O teto pequeno. O chão imóvel. E o sol torto pelo espelho cego: sábado é o álibi do domingo.

Posto vazio, ruas viradas, lagoa ensolarada. A vontade dela, a saudade daquela e a certeza: ela. Um refrão na voz do Roberto, o Ribeiro, frisa-se, para não haver desencontro. O toque do celular, o amigo atrasado, a amiga ansiosa, os amigos que não dormiram, os que não acordaram.  

Abre a porta, já tem gente cantando. Amanhã tem mais. Para ontem não há palavras. Mais um hoje. Vamos de novo. O bloco saiu.  

Mas já volta.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Abrir caminhos

Sentir saudade é indefinível. Pode-se, claro, recorrer à tentativa de explicá-la através de uma música daquela época, de um cheiro da infância, de um lugar, de um sabor. Dizem que ter saudade é bom; também sei dos que concordam que é ruim, pois certas vezes não poderemos, nunca, encontrar naquela pessoa ou naquilo que nos faz lembrar daquele tempo, a razão da falta.  E aí dá um aperto no peito: a respiração vacila.

Abrir espaço para o novo. A frase que ouço desde criança reaparece na memória logo no início do ano. Talvez porque minha mãe repita tais palavras naquela ordem nesse mesmo período. Sempre me perguntei a razão do conselho, se é que pode-se chamar assim, mesmo que saiba de minha dificuldade em desvencilhar-me do passado. Recortes de jornal, revistas antigas, contas já pagas, comprovantes bancários, fotografias de pessoas que não amo mais e, ainda, das que não me amaram nunca. Lá no fundo, apertando a ferida, insisto: ah, mas, de repente, posso precisar ler de novo aquele artigo, o banco pode dizer que não fiz o depósito, podem dizer que o pagamento já saiu. Aquela pessoa pode voltar, aquele tempo pode voltar e eu posso voltar a ser aquele que guardou a foto. E logo após o mergulho, ao recuperar o ar do tempo, reconheço que a lágrima é o único líquido retido pela lembrança. Amontoar recordações, quaisquer que sejam, impossibilita viver coisas novas – ou simplesmente viver.

No entanto, buscar a saudade é estranho. Cercar-se de artifícios que nos remetam a outras épocas ou a outros eus, os que passaram, não nos ajuda a abrir o caminho para o novo. Quase forjamos uma nova personalidade a partir da antiga, não nos permitimos falhas; o receio de seguir em frente, mesmo quando seguir em frente não significa seguir em frente: às vezes caímos num precipício, outras tropeçamos – e só seria possível se déssemos o passo na direção da vida. Quem é esse novo? O amor, o trabalho, o sofrimento, a saudade.. Ainda não sei bem.

Mas mudar sempre é novo.





segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Uma estrela amiga

Outro dia a Cris preparou um almoço delicioso na casa dela, coisa que volta e meia ela, zás, cisma de cozinhar. O menu era  risoto de figo e peito de pato. Pode parecer metido à besta, mas quando ela cozinha, a certeza do bom gosto se sobrepõe à dúvida da oferta. Chamei a Luizinha e chegamos junto com o Ceguinho. Ziza apareceu logo depois e éramos cinco à mesa. Abrimos um vinho que levei de minha modesta adega que, apesar da tarde quente, caiu muito bem.

Uvas verdes, nutella e sorvete de creme para fechar bem o cardápio do dia. Depois fomos à sala e ficamos de conversa fiada, para jiboiar a comida. Aquela lombeira gostosa depois de uma bela refeição. Foi quando Cris me desafiou a tocar violão, quando falávamos do duvidoso talento de um amigo em manusear o instrumento. Saiu e voltou com a viola nos braços: toca aí, então, alguma coisa pra gente.

O reencontro inesperado com minha adolescência me trouxe tanta coisa boa, como me levou de volta àqueles tempos maravilhosos. Toquei Legião Urbana, Cazuza, Marisa Monte... Tinha me esquecido de como é bom reunir amigos e cantar, viajar na sua onda, pensar na vida, tentar se procurar, mais uma vez, nas letras e na melodia. Lembrar porque tal música me faz – ou fazia – sentir aquilo que sentia; relembrar o que se pensava naquela época, em se gostava de certa pessoa. Havia mais de dez anos que não tocava violão. Já havia dedilhado uma viola na casa de algum amigo, mas tocar por boa parte de um sábado à tarde, cercado das minhas três melhores amigas, um camarada a quem tenho grande apreço, depois de um almoço saborosíssimo, me fez perceber que estou vivo. E mais do que isso: eu preciso estar vivo.

E percebi que tudo isso só foi possível por causa da Cris. Quando nos conhecemos, em circunstâncias curiosas, ainda éramos estagiários em empresas diferentes; quando ainda não nos sabíamos felizes graças a quem nos cercava; quando cismávamos em socorrer quem não nos socorria; quando permiti que ela me puxasse a orelha, quando precisava ouvir o que só ela poderia me dizer, me alertar, me colocar no chão. Eu, que já considerei um erro sua mania de ser mãezona, que já lhe fiz as maiores grosserias; ela sempre esteve lá, ao meu lado ou me colocando debaixo da asa. A tarde que passamos na sua casa. Os amigos que fiz a partir da nossa amizade. Amigos que chegam depois e ficam pra sempre. O violão. A melodia. A dança. O bolo de aniversário que ela levou pra mim; o aniversário da Aline no Dendê; as compras da festa junina; o saquê que eu poderia pagar depois; o réveillon inacreditavelmente inédito; a Ziza; o ombro, o rosto, o sorriso; as lágrimas. O abraço. A amizade. O amor. E, como nos versos na música do Tim Maia, Cris, que leva seu nome: Meu caminho é ida sem volta/ Uma estrela amiga me guia/ Minha asa presa se solta. 

Pensei: deve ser possível então ser feliz. E naquela tarde foi assim. É como no filme em que o personagem do George Clooney pergunta ao noivo da irmã: pense em todos os momentos felizes da sua vida. Em qual deles você estava sozinho?

Obrigado, Cris. Você é foda.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Fantasias

Nunca tinha ido àquele lugar, mas o aniversário de um amigo me fez debutar no referido inferninho do rock’ n’ roll. Fui sozinho, cheguei a beber em casa algumas doses de uísque, mas não fazia diferença mais o quanto beberia depois, porque quando conhecemos alguma coisa nova somos todos agraciados pelo sumiço do que fomos até ali. Como uma folha amarelada e seca ao desprender-se do galho, depois de uma varredura despretensiosa de uma brisa. 

Adentrei ao salão rumo à pista de dança. Estiquei o pescoço por cima da multidão espremida e embalada pelas músicas estrangeiras. Entre pedidos de licença e de desculpas, alcancei o grupo de amigos onde estava o aniversariante e pousei próximo à rodinha de amigos e conhecidos. Sacolejei um pouco o corpo e rapidamente, impulsionado pelos goles do escocês que havia no copo de vidro da mão, entrei no ritmo da bateria, contra-baixo e guitarra. Tudo bem até aí, novidades são sopros do acaso, quando ficamos à mercê das coincidências. E eis que uma amiga de ascendência oriental, queridíssima, repousa a mão sobre meu ombro e me apresenta uma amiga, supondo que, acredito, já nos conhecêssemos. Ao perceber a dupla negativa, não houve tempo para saia justa, ela e eu, num movimento involuntariamente fabricado, cumprimentamo-nos e tentamos nos (re)conhecer melhor, procurando encontrar outras pessoas em comum. Pois bem, achamos alguns tais, mas que não valem a pena divagar por estas linhas. Sigamos.

Gostei do jeito dela dançar, sabia sacolejar bem, melhor do que eu, mas isso não chega a ser difícil, porém, de qualquer maneira, agradou-me. O jeito que jogava os braços para cima e para baixo, as pernas desordenadas rabiscando o chão escuro e quiçá invisível, rosto inclinado para baixo; cabelos, cortinas. E eu a-com-pa-nha-va seus movimentos sem ensaio, pelas curvas das músicas. Procurava seus olhos. E ela ali, firme, sabia que eu a fitava, e eu tinha consciência de que ela consentia meu descaramento velado. Eu ainda procurava disfarçar, à meia-boca, alternando pequenos goles de malte que já estava aguado pelo gelo precocemente liquefeito. Ela aproximou os lábios ao pé do meu ouvido, perguntando qualquer coisa. A música alta impossibilitava qualquer diálogo que a situação merecia, mas mesmo assim, embalamos num papo legal, que tinha Rock’n’Rio como assunto inicial, quando foi o primeiro, e o segundo?, você era nascida, eu também, mas, Bruno, você era muito novo, como lembra?, olha, eu consigo recordar alguma coisa, quantos anos nos separam? Ah, você não sabe, faça as contas; E eu fiz qualquer operação algébrica, que, evidentemente, estava errada – e ela me corrigiu, sorrindo.

As bexigas apertaram e nos separamos por alguns minutos. Como as coincidências fabricadas, nos esbarramos, de novo, e subimos para o outro andar. Música lenta, ou melhor, menos agitada, pessoas esparramadas pelo sofá, pelos pufes, fantasias penduradas pelos cabideiros da sala. Chegamos a dançar alguma coisa, rostinhos colados, risos descolados, porque somos moderninhos, um esboço de beijo, uma recusa despretensiosa, uma provocação deliciosa. Dançamos mais um pouco. Atendendo aos apelos de uma moça, que deveria ser amiga dela, posamos para fotos engraçadas, dessas da moda, onde escolhemos fantasias e nos expomos ao deleite da ocasião. Bengalas, chapéus, perucas e outros apetrechos, não lembro se ela chegou a usar alguma echarpe, mas não importa, fotografaram nós dois. E mais outra foto. E a terceira, como se fôssemos quase amigos, um beijinho doce, uma bitoquinha, que deu apenas para sentir o gosto dos lábios dela nos meus, talvez por isso estalei os beiços depois de passar a língua sobre eles. Descemos de volta. Antes disso, porém, ficamos na fila (bexigas apertam sempre, é fogo) do banheiro e este que escreve estas palavras sem ordem, precisava, também, aliviar a vontade de aliviar-se, pois é muito novo para contar com problemas nefrológicos. Pois bem: eu desci, ela viria depois.

Poucos minutos depois, ainda desnorteado pela afinidade surpreendente, procurei por ela através da multidão de cabeças e corpos espremidos no recinto que transbordava gente pelo ladrão. Tinha ela indo embora? Não. Ainda não.

Foi quando ela surgiu na minha frente, me buscou pela mão, a mesma do copo, a mesma que lhe segurou a cintura na hora da dança, a mesma que protegia a boca na hora de confiar-lhe um galanteio, e me arrastou para o canto escuro e invisível. Recostou-se na parede. Fitamo-nos de olhos fechados. E foram lábios e línguas e respirações e sorrisos. Os movimentos repetiram-se por mais alguns instantes. E ela desapareceu como veio: despretensiosamente encantadora.

domingo, 20 de novembro de 2011

Domingo

Não escrevo há alguns dias, mas não deixei de pensar em escrever.  Quase uma cobrança diária, mas não chegava a me incomodar. Quer dizer, não chegava a me incomodar tanto. Simplesmente não estava com paciência ou inspiração para colocar os pensamentos em palavras. Muitas coisas aconteceram neste intervalo, talvez, então, esperei a massa secar. Permiti que o tempo se encarregasse da minha ausência literária  - também não tenho lido. Primo Bazilio deve estar meio puto comigo, não lhe faço uma visita há semanas. Mas tudo bem, vida que segue. Vida. Adoro essa palavra.

É estranho preencher espaços abertos pela solidão. Estar só nem tanto. Um almoço com a melhor amiga, moqueca de peixe, camarão e siri (este último só entrou na panela por pura insistência dela, admito que soube convencer o garçom a convencer a cozinheira com maestria e simpatia) e passamos a tarde aqui em casa. Rimos, conversamos, assistimos a um jogo de futebol, depois a um filme. E quando ela desceu para tomar o táxi, a porta fechada abriu ferida antiga: o silêncio das decisões.  É quando revemos o que fizemos, o que deixamos de fazer, o que deveríamos ter feito antes. No amor, no trabalho e na vida. Aquela palavra que gosto tanto. Será que estou no caminho certo? Se minha ex gosta de outro, que bom, ela seguiu adiante. Se a mulher que estou saindo me deu um pé, que lástima, levarei tantos outros. E é como aquele poema do Cacaso: “Perder um amor é muito duro/ Perder dois, bem menos.” Se o pessoal do trabalho me ligou perguntando quando volto, que ótimo, disse que voltaria só daqui a alguns meses. Se minha vida tem algum sentido até aqui, que merda, não consigo ter certeza, mas posso escrever. E é a única coisa que sei que gosto de fazer. 

Deixar de escrever é meu maior silêncio. Palavras desesperadas se estapeiam aqui dentro e não há tocaia que me faça mais cair nessa armadilha solitária. Ausentar-me de mim. Como é bom ouvir o som das palavras surgindo à minha frente, o barulho distante dos carros passando pela rua, sentir o gosto amargo de uma noite de domingo. Acho que a vida é meio domingo: uma dádiva que não sabemos apreciar, mas quando teimamos em aceitá-la, somos felizes. Na medida exata de sua existência efêmera e, por isso, deliciosamente paradoxal.



sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Quem quer fumo, vai à boca

- Cana de otário é vadiagem.

A segurança, o desafio nas palavras, vem na voz cantada de Luís Carlos de Souza, 25 anos, um mulato franzino conhecido pelo apelido de Pimenta, morador atualmente do “Inferno Colorido”, um conjunto habitacional no bairro de Realengo, e freqüentador da maior boca de fumo do Rio, a do morro da Providência, atrás da Central do Brasil. O movimento na área dos traficantes “Tainha” e “Cueca”, que estão na cadeia mas conseguem ainda dar ordens no morro, é grande, organizado e vigiado, dia e noite há quase dez anos.

O caminho que leva à boca todo mundo sabe, inclusive a polícia. A escadaria que dá na Ladeira do Barroso, no alto do morro, entre a Gamboa e o bairro de Santo Cristo, começa em frente à 2ª Delegacia Policial, na Rua Bento Ribeiro. À medida em que se vai subindo os degraus irregulares, nota-se pelos lados, atrás dos barracos, homens com atitudes suspeitas. No rosto, a marca da desconfiança transmitindo medo a qualquer estranho. Nas janelas ou estendendo roupas no varal, os olhares interrogativos das mulheres. Ali ninguém confia em ninguém. Quando uma lei no morro não é respeitada, “dança” até quem não tem culpa. Todo cuidado é pouco.

- Tá limpeza, irmão.

O sinal verde do homem de boné, jaqueta Lee, apesar do calor, é confirmado por outros três colocados estrategicamente perto das escadas. O desconhecido está sozinho. Lá embaixo, a delegacia e os carros desaparecendo dentro do túnel João Ricardo. Luís Carlos, de camisa aberta no peito onde desponta uma guia vermelha e preta de Exú, aperta um “fininho”, sentado num degrau com a marmita do lado. O relógio da Central do Brasil marca 18h45 e ele acabou de chegar de uma obra na Praia do Flamengo.

- Para aturar a batalha, só fazendo a cabeça. Se a gente dá duro, os “zome” cisma. Se a gente fica no desvio, nem se fala. Mas nessa transa de bagulho, eles gostam é de pegar os pleibóis que vêm vacilar aqui em cima.  A patrulhinha só fica esperando lá embaixo. N a descida, tem que deixar uma nota. Eles têm sempre um troco para não ver o sol quadrado, não é mesmo? Com a gente, se não levar na conversa, o coro come e ninguém vê.

Pelos lados, homens, rapazes e mulheres conversam alto, contando vantagens. O revólver de cabo de madrepérola aparece na cintura do mais afoito, com toda pinta de guardião da boca. O fuminho vai correndo solto de boca em boca, sem pressa. Se demorar, neguinho chia.

- Solta a franga. Ô da política, tá com chiclete no dedo?

Um pouco destacado está um rapaz de calça jeans, camiseta e óculos escuros. Acabou de descer de um Volks vermelho, no Largo do Barroso. Subiu uns lances de escada e logo – logo fez um canudo com uma nota de Cr$ 10,00, com que aspira um papelote de cocaína, que custa Cr$ 150,00 e arriscado a vir, todo malhado, muito talco, sal e açúcar. É vendido quase exclusivamente a “estrangeiro” e tem o sugestivo nome de “Brizola”. O cartucho de maconha custa 60 cruzeiros e geralmente é vendido pelo dobro no asfalto. No Baixo Leblon, qualquer baseado vale um “galo” (50 cruzeiros).

As crianças não avisam, mas quando a polícia chega no morro é o medo delas que dá o alerta. Brincam pelas escadas implorando sempre ao estranho um trocado, um refrigerante ou mesmo um pão. As maiorzinhas participam da transação, vendendo fumo. Ganham 10% por cada cartucho vendido, uma maneira do dono do peso escapar do flagrante.

Pimenta está de cabeça feita e as palavras são fortes e agressivas:

- Tô numa batalha lá no Flamengo, de servente de obra. Dá pra tirar um trocado, que vai tudo na passagem. Às vezes, fico injuriado e faço uns ganhos. Sei que não vale a pena, mas meu filho ficar sem leite e comida é duro. Como vou provar aos homens que estou trabalhando se minha carteira não está assinada? Tem que ficar sempre atento para dar o pinote.

Sentado nas escadas tranquilamente, de barba rala, chapéu enterrado na cabeça, o homem da boca vai contando o dinheiro e só passam entre os dedos notas de Cr$ 50,00, Cr$ 100,00 e Cr$ 500,00.  Ao lado dele, uma sacola onde está guardada a erva. O movimento continua, com gente chegando a pé pelas escadas ou de carro pela Ladeira do Faria, na Gamboa. 

O movimento da boca cresce, como também a atenção dos homens que vigiam as entradas principais. Antes de ir embora, em direção à Central, onde vai pegar o direto para Realengo, Luís Carlos se despede:

- Vou dar linha à pipa que o vento tá a favor. Sou mesmo é empregado da vida. Ela, às vezes, maltrata, machuca a gente, mas a dor é só minha. E ninguém tem nada com isso. Quem trata de mim sou eu. Olha aí, vou sartá. Até mais.

(Tim Lopes – REPORTER – Nº17 – MAIO DE 1979 – PÁGINA 7)