quinta-feira, 10 de março de 2011

* Lutas

- Não tinha pensado nisso...

- Mas não é o que queria?

- Eu falo muito e, às vezes, acredito no que digo, e então olho pra mim e nem sem mais o que é verdade. Tive essa ideia maluca de lutar... O que estou querendo? Quero mesmo estar lá firme e forte e tal? Ou, como diz meu filho, é só meu ego? Ou estou tentando substituir a velha dor por uma nova? Eu não sei! Eu não sei...

- Veja bem, sei que geralmente não falo muito. Estou sempre ouvindo e observando... Mas quem você é, a sua parte, está tão cheia de vida... Todos temos esse fogo, mas sem chance de usá-lo. Então, ele se vai. Mas você pode. Tem essa chance, então faça. Por que não? É quem você é. É quem você sempre será. E não mude de ideia por ninguém, até que você esteja pronto. Não importa o que possam pensar. Só importa o que você pensa. Olhe pra mim. A decisão é sua. E se é algo que quer fazer e se é algo que tem que fazer, então faça. Lutadores lutam.

- Lutadores lutam, né?



* Diálogo do filme "Rocky Balboa"

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Café de laranja

Ainda não se sabe como aconteceu. Nem Lula nem Caetano – tampouco Eudes. Imagino se todos estivessem na casa da Táta ou próximo dali, no reinado de um crustáceo. Um pedacinho da Itália, ali, à beira do Leme. Alguma coisa pela manhã, uma mistura entre fermentados e laticínios, feitos na brasa: na hora.

Uma linha. Três paisagens. Um pedaço de pele bronzeada, olhos morenos e cabelos castanhos, tudo que o sol pudesse conduzir pelos raios de uma luz nunca vista. Um biquini de corações: perfeita simetria.

Eu só quero que esse brilho no olhar não acabe nunca. Tô saindo, mas não consigo te ligar. Tá foda, chega logo oito da noite. Suco de laranja, vamos ali no portão. Açaí baby, hoje eu posso. Só não gosto de água com gás quando penso que é água sem gás. Duvido. De repente eu que tô dando bandeira. Eu quero saber a partir daí, diria ele. E ela respirava fundo, buscando nos intervalos de seus passos o fôlego de um novo começo. Então mantenha esse pensamento. Na ponta da língua. Vem buscar.  Incrível. Espetacular.

Tô saindo daqui, já te explico. É engraçado. Tô no Leblon, acabando o almoço. Sabe aquela gata da foto? Não se duvida de raio-relâmpago-e-trovão. Sabe que eu tava pensando no ciganismo agora? Acho que é por isso que eu sinto essa coisa de liberdade tão pulsante, por isso que não aceito as convenções goela abaixo. Meu sorvete preferido é o Dragão Chinês, sabe? Havia motivo pra tudo e tudo era motivo pra mais. Gosto da arte em cima, do romantismo. Eu levaria uma câmera e filmaria a cidade, os escombros e tudo. Cidade-fantasma, meio Saramago e tal. Não exploraria o drama das pessoas, isso você não precisa filmar. Você pode ouvir, conversar ajudar. Documentalmente, você faz de longe.  Então, assim, entendo tudo que você disser.

Minha cabeça parece que vai explodir. E você, trabalhando? Tosse, garganta arranhando (não é dor de garganta, mas tipo um pigarro mais áspero), meio febril, meio mole, foda. Exatamente, trabalhando.  Sabe o “procura-se Amy”?
Não acontece nada demais nesse dia do filme. Tipo terça. Mas isso de share a moment é incrível, porque você fica em busca daquele sentimento que sentiu. Mas aí fala dos bastidores.

Não queria que você me cortejasse nesse momento. Não falei por nada, foi só um comentário desconexo. Acho que tô com febre. Tylenol? Polaramine. Cebion? Belanet. Papo hipocondríaco. Você sabe se esquivar. É o que dizem. Adoro essa frase: é o que dizem. Gosto de outra, do Cortázar: minha vontade é o seu futuro. Tô lendo um do Alcione Araújo. Esse papo não faria o menor sentido dez anos atrás.


Meu querido, despretensioso é uma palavra que não ta cabendo muito. Mudando de assunto, pra dar uma respirada. Não era pra dar respirada. “Porque dói entender que a posição da lua não interfere no quanto eu morro um pouco todos os dias”. Gosto de quem escreve sem adjetivos. “Antes, tivemos gestos que nos levaram àquele instante; depois tivemos gestos que nos tiraram daquele instante; mas, naquele instante, estávamos felizes.” Esse aí você encomendou, né? E você não sabe da situação onde me encontro, geograficamente falando. O combinado não era não cortejar?


Mas o café da manhã era despretensioso.



quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Pelos desencontros

Pelas palavras


Desceu da van e caminhou pelo sentido contrário do pensamento. Nessa direção também cambaleavam alguns carros. Faróis não iluminavam tudo. A noite, sim. O hálito de uísque se misturava ao gosto do pão. Passava a língua sobre os dentes, mesmo com a boca fechada. Com os olhos reverenciou o céu.  E lembrou do sorriso da diva negra da pela clara. Pôde vê-la de perto mesmo de longe, alternando atenções à tela enorme à esquerda à direita à esquerda à direita, porque para o centro das atenções não eram necessários cristais. E lá estava ela, altiva, cabelos recheados deles mesmos, num coque de robustez indescritível, girando o ombro direito para lado oposto, e desabrochando um sorriso só dela - como consegue? -, quando inicia com os olhos o esboço de exuberância feminina, ao levantar a maçã do rosto apertando o olhar e, num movimento desordenadamente alinhado, desce à boca, e os lábios juntos suspendem-se levemente na curva da face enfeitada pela maquiagem e, pouco a pouco, vão se abrindo, como se fossem cortinas, e dão espaço aos dentes, como se fossem luzes, que, por sua vez, dão lugar à voz, como se fosse um elixir lírico: um rasgo na noite que iluminava tudo. Um brilho num embrulho de gente.  Talvez por isso chovesse tanto lá fora. Os relâmpagos estavam pelo avesso: do lado de dentro de nós.


Pelos caminhos


Seguiu torto pelo asfalto. Pistas suadas do calor. Testa molhada de suor. Percebeu que o canteiro dividia outras coisas, além dos sentidos. O canteiro cortava o tempo naquele momento. Lembrou da corrida esbaforida da ida. Da retirada batida e necessária da volta, por implicações nefrológicas. Éle-Bê-Dábliu eram as iniciais da abóbora que os levava de volta à realidade. Fez esforço para guardar na memória a trinca de letras que determinaria o reencontro com os companheiros de espetáculo. Foi quando atravessou as vias expressas e - lá estava ele novamente! - cruzou o canteiro da grama encharcada. Afundou os pés na lama fabricada da chuva, suplicou para que os carros refugassem seus destinos, pois a bexiga lhe suplicava pelo seu. Por alguns instantes conferia pelo olhar o outro lado das pistas, onde acompanhava com dificuldade o curso da van. Não pela velocidade das coisas, mas pelo embaralhamento, consentido, causado pelo álcool. Ao chegar à outra margem, justificou-se em voz baixa. Resolveu-se. Fitou a linha de carros. Procurava a tríplice alfabética que lhe levaria de volta à embarcação de aço, branca, que fez das rodas pás. Talvez por isso chovesse tanto lá fora. As árvores estavam descabeladas na beira da estrada. Na ribanceira do coração eram outras as despenteadas: do lado de dentro da van.


Pelos desejos


Deu-se conta que não lembrava da cena. Ingresso? Na mesa do computador. A imagem estava intacta. Não precisou apalpar os bolsos ou rebobinar seus passos. Os amigos lhe esperavam estacionados na van. Alerta. Tentou comunicar-se com uma; outra; tentou a terceira amiga: sucesso. Explicou que precisava voltar para buscar o que tinha esquecido. Durante a corrida, a segunda das cinco que daria até o fim da noite, tentou adivinhar como seria o concerto, tantos palpites dos que não sabem, tantos silêncios de quem já soube, como diria Pessoa: 'Aos que a felicidade é o sol, virá a noite. Mas ao que nada espera tudo que vem é grato'. Talvez por isso choveria tanto. Uma noite que banhou-se de sol, como se da chuva surgissem pingos de luz, como se nas nossas cabeças fossem germinar sonhos, como se nossos frutos fossem nós mesmos.  No terceiro pique em direção aos amigos, já com a garrafa de uísque em punho - quantas sedes caberiam ali? - buscando ar na atmosfera rarefeita do susto, recompôs-se numa parada de ônibus e, logo em seguida, foi surpreendido por um rosto até então desconhecido, que surgiu da van que mais tarde decoraria as letras - e não os números: 'Amy, vaga sentado. Vambora?'


Pelas surpresas


Subiu o degrau e mal podia falar. Percorreu a van com os olhos e reconheceu alguns companheiros. Outros, como a moça que lhe fez a oferta do bom lugar e mais três feições novas, que conheceria a partir dali. Fidalguias recíprocas. À direita, no chão, uma caixote plástico, onde encontrava-se outra garrafa maltada, de qualidade semelhante, mas valores diferentes. Havia em seu interior pedras de gelo aos cubos. Posicionou-se como cobrador da van. Era neste palco motorizado que começaria o show. O mesmo palco que na véspera , a cortina fechadas, foi motivo de discussão eletrônica. A mesma van que lhes fez confundir com uma casa de putas dirigida por PM. E na van havia uma telinha pequena suspensa no teto, onde assistia-se a uma apresentação de um grupo liderado por uma ave de rapina. Não estavam nem aí. As conversas esvoaçavam pelos bancos, uns debruçavam-se sobre os assentos para olhar para frente, outros esgueiravam-se para poder ouvir melhor um comentário, alguns telefonavam para tantos, que as conversas multiplicavam-se, as vozes, os ouvidos, as línguas saíam de sincronia. O comandante da nau: Lula. E a primeira parada, um posto de gasolina. Reabasteceram-se de bebidas energéticas, de cevadas enlatadas, de cédulas, de água de côco, de sanduíches que vieram a calhar, desobstruíram-se de alguns líquidos, embarcaram novamente e rumaram em direção à última navegante, que residia próxima a uma praça que tinha o nome de uma vogal - para diferenciar-se das consoantes da van, o palco motorizado, que lembrava um certo filme, uma de uma certa pequena miss de raios de sol. Mesmo com a chuva que se aproximaria - mas que não mudaria o curso das coisas. Porque a van também lembrava um quarto aconchegante com amigos esparramados pelo chão, almofadas espalhadas, gargalhadas em noites de riso: sorrisos em dias festa.



Pelos encantos



Atracaram em terra firme, ao meio-fio. E, neste caso, era o palco que saía de cena - e não os artistas. Combinaram o local do regresso, como aquele dito popular: numa tempestade, qualquer porto? Lula, o almirante do coletivo urbano aquático, iria descansar, ancorado em alguma esquina. O leme agora era deles! Trataram de atravessar a rua e - lá estava ele novamente - cruzaram o canteiro. Na passarela de piche desfilaram todas as moças do grupo, todas belas, enquanto os dois rapazes encantados pela sorte, pela sorte de estarem ali, pela sorte de estarem ali com mulheres tão cheias de si, pela sorte destas serem suas amigas. Os carros pararam. Os faróis serviram como iluminação dos passos de cada uma, o comércio não fechou porque ali não havia estabelecimentos, mas vendedores ambulantes paralisaram por alguns segundos antes de tornarem a oferecer capas de chuva, cervejas duvidosamente geladas, e até os cambistas repensaram os preços ao fitarem sete moças - a oitava havia antes desembarcado em outro cais -  de beleza evidente e de elegância idem. Completaram a pequena travessia, ainda sob os respingos de sol de Pessoa, sob os pedacinhos d´água do céu carregado: ancorariam num continente desconhecido dos olhos, mas reconhecido pelos ouvidos.



Pelos desencontros



O giro da roleta. A passagem do tempo para o espaço. A caminhada ao encontro da multidão. Os sorrisos nervosos. A espera de uma apresentação. A música favorita dela. A música favorita dele. A nossa música favorita. Qual será a sua? A odisseia em driblar as pessoas, os cotovelos que patrocinam respingos de cerveja, de uísque, o cigarro que não pode, o cigarro que não deve, a fumaça que abre, a que prende, um abraço, um beijo, um aperto de mão, um coro na canção conhecida, um silêncio no trecho esquecido, uma procura: um achado, um perdido. Uma sede que leva à outra sede: duas fomes. A melhor visão sob certa altura, olhares que escapam à luz da razão. Palavras que se encontram na escuridão dos desencontros. Luzes da cidade, remos em punho em direção à van branca, no xis marcado no mapa da memória. O retorno para onde não vieram.


Outras pessoas nos mesmos corpos.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Carta de uma amiga

Ele não é Aquiles.
Tem sola invulnerável.

Pisa olímpico sobre cacos afiados da maledicência. Caminha, sem medo, na sala dos invejosos.
Encara, sem calçado, buracos negros do destino.  

É mendigo descalço. Só quer de esmola o beijo efêmero no bloco de Carnaval.

São pés democráticos. Percorrem o tapete persa da família de cobertura e o ladrilho imundo do boteco. E nesses carinhos de esquina, nesses bares suburbanos, ganha casca cada vez mais dura.
Rígida como o couro do pandeiro que embala suas noites.
Em breve, estará pronto para a Guerra de Tróia. A Guerra da Vida. Sem calcanhar exposto.

Seus olhos também são armas de longo alcance. Radares de lince ou de Linceu, da mitologia grega.
Enxergam o que não vemos ou não queremos ver. Guardam na retina esverdeada detalhes de um minuto. De um instante. De uma risada, reproduzida em minucia, em palavra, em teatro.

O palco? Qualquer lugar.
Brilha em suas homenagens genuínas. Ganha a plateia no constrangimento. E o povo quer mais...

Ele também quer mais. Mais de si.
Sabe que pode. Sabe que deve.

E na certeza, por vezes, se embriaga de ansiedade. Do garrafão de suco com vodka, goles fartos para aquietar a pressa. Do copo de cerveja, litros de expectativa dourada. Do cigarrinho de palha, baforadas de inquietude.

E assim, vai trilhando a estrada, dançando no chamego da moça, ganhando na
malemolência.

O Olimpo te espera paciente, rapaz.
Seus pés invulneráveis vão te levar até lá. 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Despedidas

Eu nunca soube ir embora de uma festa. Nunca consegui me despedir de meus primos nas viagens da infância. Também nunca superei o vazio da saudade. Nunca me desvencilhei do sofrimento da perda. Achava que nunca mais meus Natais seriam os mesmos nem os anos que viriam a seguir. Cismava em refugiar-me nas lembranças. Mergulhava em músicas capturadas pela memória. Buscava reviver amores que já não existiam. Passos lentos. A respiração vacila. Permito que o passado venha à tona, que me afogue a vista, por isso não pisco os olhos. Permaneço estático fitando a paisagem. A solidão vacila. Dou-me conta de que estou triste. Posso escapar da tristeza, mas não: quero a violência da despedida. Reparo ao redor, nos rostos do avião. Nas feições das filas. Nos campos miúdos vistos das janelas sem cortina. O coração vacila.


Eu sempre chorei na hora de cantar parabéns. Sempre me esvaía em lágrimas quando meus pais me pegavam no colo, rodeado de amiguinhos, brigadeiros e o bolo com super-heróis. Mesmo impulsionado pelo coro da cantiga, eu levava as mãos aos olhos cerrados, para não me perceberem triste. A despedida me violava a data querida. Minha mãe não entendia a razão do pranto ali, no meio de balões e brinquedos. Tampouco o Super-Homem, o Batman, o Lyon e a Shytara. Desconcertados, todos, miravam meus movimentos à espera - ainda que na esperança - de me ver voltar a si e rir o riso de horas antes, como durante as brincadeiras de pique-pega, morto ou vivo ou tudo-que-seu-mestre-mandar. Meu pai franzia a testa e, bastante preocupado, alterava o tom de voz e perguntava baixinho o que tinha acontecido. E eu não saberia ainda dizer que era, pai, que era, mãe, o medo das coisas acabarem. O temor de ver meus amiguinhos irem embora da festa. O toque de recolher dos pais exaustos - mas satisfeitos - de mais uma festinha de aniversário do coleguinha da escola. Tudo tem seu tempo, mas o tempo não tem tudo. O tempo vacila.


E nos fins de ano, sempre é assim. A despedida é a saudade antecipada. Eu me antecipo à saudade. E sofro duas vezes. Quando meu avô morreu, eu tinha treze anos. No velório, meu pai me puxou pelo braço. Fomos dar um passeio pelo cemitério antes mesmo do cortejo. Repousou sua mão em meu ombro, e disse que eu não parasse de caminhar. Prosseguimos. Mais à frente, encostou-se numa lápide. Desabou-se em mim aos prantos. Estava inconsolável. Tinha perdido o pai. E eu, ao ver aquele mulato forte tão vulnerável, tentei abraçá-lo com toda força do mundo. E eu tive, ali, toda força do mundo. Não falei nada. Apenas segurei-o forte. Mas como é como se sabe. O mundo vacila.


Com minha mãe não foi diferente. É a mulher mais forte que conheço. Nasci de seu terceiro casamento. Ela tinha quase seus quarenta anos. Único filho, "muito desejado, muito gerado e muito amado". O segundo adjetivo é pelo número de tentativas, daí o termo curioso. Nasci de olhos abertos, sempre faz questão de dizer. Acho que chorei porque não queria sair da barriga, como todos os bebês do mundo, evidentemente, mas talvez aí haja a explicação para minhas festas de aniversário quando criança. A hora de cantar parabéns é sempre um novo nascimento. E, sabe-se, toda criança vacila.


A véspera de ano novo me faz chorar. Lembro de meus tempos de criança. Das idas à praia com meu pai. Das viagens ao Nordeste com minha mãe. Dos enterros de meus avós. Dos amores que se foram. Dos amores que ficaram. E sempre se pensa: depois disto ou daquilo, nunca mais o Natal foi o mesmo. Ou: nunca mais a festa foi a mesma. A família diminuiu. Antigamente a casa estava cheia, hoje não é mais a mesma. As crianças cresceram. Mas acho que é justamente aí que discordo. Nós é que mudamos, nós é que vivemos de outra maneira. Porque respiramos diferente. O coração bate em outros ritmos, em outras direções. Ficamos mais sós, mas nem por isso solitários. Nós crescemos. Os tempos serão sempre outros, o mundo dará sempre mais voltas. As crianças sempre estarão em nossas vidas. E, como percebe-se: as pessoas não vacilam. As pessoas vivem movidas a despedidas.

E à saudade.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Sessentinha


"Um homem sabe quando começa a envelhecer porque começa a parecer com o pai"
Gabriel García Márquez  - "O Amor nos Tempos do Cólera"
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Sessentinha, gente boa... E aí, como é que é? Vai dar mole pra Kojak?

Não sei como tá pro teu lado, mas daqui tá na boa. Maré mansa, levando na crista da onda. As coisas acontecem, minha mãezinha tocando a vida, meu garoto correndo atrás. E não vem com essa de coroa, não, mermão! Tô pro gasto ainda, sambando direitinho, cantando o baixo o refrão pra não chamar atenção de malandro. E você, tá legal?


Deu saudade de te levar pra passear no Aterro do Flamengo, como daquela vez que subimos as árvores. E tava toda cagada, fedendo pra cacete, e sua cara de menino assustado... Frescura, o cacete, pai, era nojo mesmo. Então tá certo. E a praia do Diabo, mergulho no Arpoador, final de tarde no quiosque do Toninho, em frente ao sinal: posto oito e meio. Tem visto ele?


Almoço no Brasinha, esquina da Canning com Gomes Carneiro. Eduardo, salta um galeto no capricho pro meu filho, um chope na pressão e uma coca? Maravilha, e uma coca com gelo e limão pro rapaz aqui. Isso, prato pra dois, porra, também sou filho do homem, xará. Quer moleza, morde água.


Aí, não é por nada não, mas vamos com teu pai ali no Bar do Beto, tem um pessoal do jornal por lá. Depois do Simpatia papai vai pra lá beber chope. É legal, é legal. Não, Bruno, o Jangadeiros é outro, fica ali na Teixeira de Melo, no quarteirão da General Osório. Aquela vez do... Essa mesmo, garotão! Até que tu não é bobo, não, hein? Essa cara de zona sul te estragou, não. Com teu pai o lance é rua, Maraca, praia no Arpoador, churrasco em Saracuruna, sítio do vovô, lembra? Que você corria atrás das galinhas e fugia dos marrecos? Fugia sim, ahahaha! Ô, ô, baixa a bolinha, que teu pai tá falando numa boa. Esse desenho na capa da fita é uma charge, como se fosse uma caricatura, entende? Esse cara é o João Nogueira.  Bom pra caralho, mas também tem o Martinho da Vila, que é maravilhoso, peraí, deixa ver se está aqui nessa pilha de fitas. Esse é o Paulinho. Camisa dez, camisa dez.


Falar nisso, tava lembrando também das manhãs de domingo, quando você era bem novinho. Devia ter seus quatro, cinco anos. Era dia do teu pai fazer aquele café da manhã especial: pão com ovo e café. Você adorava quebrar as cascas, ver a gema estalar, o cheiro que preenchia a cozinha, cheiro de domingo, cheiro de café, e o pão francês que, à metade, você fazia um furo e colocava colher a colher dentro do pão, como se fosse um embrulho de trigo e ovos. O café passado no fogão mínimo, geladeira ainda menor, mas a cozinha era precisa: estávamos nós. E você corria para o toca-discos pedindo as músicas do papai, e eu sabia que era a Beth cantando Cartola, eu sabia que era qualquer música que fizesse que aquele momento não acabasse jamais. Você pulando no carpete, com a boca amarela do pão e com o sorriso que eu te dei.

Sessentinha é foda, gente boa. Mas é isso aí, bola pra fente.



Porque a vida não tá ganha pra ninguém.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Rumos

Pela manhã, mãos ao calendário. O xis estampado nos dias anteriores, às vésperas do fim do ano, me faz perceber a pressa em mastigar os meses. Terminar o que, certamente, será encerrado em breve, mas tem-se urgência em decretar a morte do que já fomos. Costumo riscar os tempos idos, algumas vezes até os que não foram, à medida que encerro etapas da minha vida. No trabalho, em casa, nos devaneios que poucos entendem -  e que muitos testemunham. E aí já não sei se meu flerte com Clarice é culpa dela ou minha, se Kundera me fez ser mais leve, ou se Camus transformou-me no que sou, ou Peixoto me fez reconhecer o que poderia ter sido, assim à maneira de Svevo. Reorganizo a consciência e trato de voltar aos livros, procurar as frases sublinhadas, e sempre não as encontro, ou melhor, claro que as revejo, pois estão marcadas, mas sempre deparo com frases e até trechos inteiros, que não estão enfeitados com caneta ou grafite: estão sublinhadas pela lembrança do que fui até aquele momento. Palavras que não foram marcadas pela tinta: não sublinhei porque ficaram na minha cabeça e só eu saberia o significado de não tê-las marcadas: eu, agora, as tenho e as sei. Por isso que volta e meia fogem deste que lhes escreve. 



Recorri às linhas da memória e às palavras da infância para driblar o interlúdio presente. Acontece que cismo em fabricar reações, alguns chamam de ensaios, no ato de repetir baixo as frases que direi ao adentrar a sala e enfrentar os rostos novos. Distribuídas sobre corpos cobertos de ternos e camisas sociais dobradas na manga, as feições que ainda não vi ilustram todas as projeções que cuidadosamente imaginei antes de encarar, sem titubeios, conquistas que adquiri a duras penas. Saúde agora não me falta, apesar do tornozelo inchado pelo degrau pisado em falso, as barbas em regresso me sobrando as maçãs, meus olhos curiosos ao percorrer em horários sentidos toda minha vida, mesmo que meu corpo preencha pouco os espaços que me cabem. Penso nisso toda vez que, ao ler trechos do livro favorito, abaixo o volume das coisas, repouso os óculos na cabeceira, inspiro o ar daquele instante, como se pudesse sorver outros vocábulos, não os do papel, mas da atmosfera que se fez depois de ler a combinação de consoante e vogal, a dupla preferida que consegue nos levar a qualquer lugar longe de nós, mesmo que seja do lado de dentro. Ainda não descobri porque leio mais devagar as páginas da esquerda do que as da direita, vai ver que as curvas são mais acentuadas para tal direção, nunca pensei que fosse um ambidestro literário, talvez não seja, mas os canhotos devem ler de forma oposta, portanto. 



Quando não me faço compreender, assim como não capto certas mudanças das pessoas, costumo recolher-me num exílio interno, quando do lado de fora de mim acontecem as coisas. Aqui dentro, mesmo que me denuncie por gestos e reações, retrocedo à prática do silêncio, das linhas não sublinhadas, dos dias que não foram marcados, páginas da esquerda e das curvas retilíneas. Há os processos que somos; há os que seremos; há os dois num só, que teimamos em esmiuçá-los através de questionamentos existenciais, chamados defesas, ou através de mudanças de comportamento, essas fábricas de nós mesmos. Gosto de acordar, escrever, ler e dormir.



Em novos rumos, mas fora de ordem.