sexta-feira, 28 de maio de 2010

Segundas

Marquês de São Vicente;
Quatro, três, dois:


Padre Leonel Franca, Visconde de Albuquerque, Ataulfo de Paiva e Visconde de Pirajá;

Gomes Carneiro, Francisco Sá, Nossa Senhora de Copacabana e Princesa Isabel;

Lauro Sodré, Venceslau Brás, Pasteur e Pedro Álvares Cabral:

Praia de Botafogo;

Santiago Dantas, Pinheiro Machado, Ipiranga e Laranjeiras;

Santa Bárbara, Catumbi, Salvador de Sá e Estácio de Sá:

João Paulo I, Doutor Satamini, Professor Gabizo e Mata Machado:

Maracanã;

Varnhagem: Felipe Camarão e Boulevard;

Barão de Drummond, Visconde de Santa Isabel e Mendes Tavares:


Barão de São Francisco: Trabalhador

Renascença

Samba

Clube

terça-feira, 4 de maio de 2010

Repetidas

As pernas cruzadas, sentado no chão. Coluna em curva acentuada, tapete forrado de papéis autocolantes, um carpete de escudos e uniformes. Movimento contínuo de olhos, mãos e caneta. Acerta-se a postura, estica-se uma, depois a outra perna: todas dormentes. Pequenos pacotes vermelhos que trazem perfis, que trazem nações: que trazem homens. Figurinhas são espelhos de espelhos, ali me vejo porque também me enxergo: figurinhas são poços sem fundo, de desejos. Ir à banca com moedas e voltar com sorrisos.




Tenho, tenho, tenho: não tenho. Mergulhei na infância simplesmente ao atravessar a rua e nadar até a banca, um pedaço de metal cercado de calçada por todos os lados. Outros metais redondos, sacados do bolso da bermuda, me fizeram embarcar num passado distante e recente. Colecionar recordações, álbum de infância, mas não de família. Entregar as moedas na mão do jornaleiro, esperar, ansioso, a troca patrocinada: pacotinhos brilhantes, estalando de novos, grudados uns nos outros. Um maço de jogadores e pátrias. Um caderno de nações e times, um livro ilustrado de títulos e eu me procurando na memória. Onde estava há quatro, oito, doze anos?




Abrir os pequenos envelopes vermelhos, como se fossem correspondências dos próprios jogadores. Rasgos no topo papel. Rostos desconhecidos e familiares, cores diferentes – de jogadores e bandeiras – e palcos de grama. Separo, portanto, todas as figurinhas pela ordem das centenas. Pernas cruzadas, coluna torta, pescoço duro: figurinhas repetidas.




Casa dos cem, duzentos, trezentos, quatrocentos. Casa dos seiscentos. Não agüento mais tirar o mexicano. Guardado? Quando chegar junho não vou suportar ouvir o nome deste jogador, certamente estará guardado na lembrança da troca, porque já consegui quem faltava oferecendo sua cara marcada por outra que sequer tivesse visto. Separadas as figurinhas das centenas, como se escolhesse feijões, agora a organização é por times, por seleções. E por emblemas.




Lembrei do filho de uma querida amiga, que, ora vejam, colou todos os jogadores argentinos de cabeça para baixo. Preocupada com a distração da criança, a mãe alertou: “filho, presta atenção! Você colou as figurinhas da seleção argentina todas erradas! Estão trocadas. E agora?” O filho, do alto de seus seis anos, explicou: “Não, mamãe. Colei certo. Fiz assim pra dá azar pra eles!” A gargalhada foi geral. Ponto pro Brasil.




Seleções definidas, hora de colar as figurinhas. Lembro de outra coisa: são autocolantes. Eu, que sempre não levei jeito para colagens e afins, obviamente confundi jogadores, troquei nomes, inverti placares. Mas nada perto de outros tempos, quando era necessário um tubo de cola Polar - ou Pritt – para grudar os rostos no álbum. Fazia uma lambança geral, exagerava na cola, molhava toda a página e o verso, atrapalhando a colagem de outra figurinha de outra seleção. Corria para o recreio, há vinte anos, e com o papel de caderno e uma caneta em punho, catava bolinhos de gente com bolinhos de repetidas. Tenho, tenho: não tenho! E que raiva daqueles que – sempre houve – acabavam rapidamente e completavam o caderno de jogadores antes de todos e batiam no peito pelo feito. Esses ainda existem.




Colecionar figurinhas me permitiu uma viagem no tempo. Para quem pensa que é besteira, coisa de criança: ainda bem! Para quem está revivendo o passado, para quem vai à praça no centro da cidade para, especificamente, trocar figurinhas: que bom! E para quem não faz uma coisa nem outra: que pena.




E me recordo quando ganhava figurinhas jogando bafo. Lamber a palma da mão ou colar chiclete, não importava, o negócio era conseguir quem não tinha, o lance era conquistar um pequeno campeonato em virtude de outro, muito maior. A copa do mundo das crianças nunca termina. O homem maduro é um álbum de lembranças, vitórias e derrotas.




Figurinhas repetidas. 

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Escombros

De repente, breu. Pedaços de concreto caíram sobre mim, mas por uma matemática da sorte, eram grandes, eram enormes, e por isso não me caíram sobre a cabeça. Mas desmoronaram sobre meus sonhos. Tenhos os pés presos e as mãos imobilizadas. Respiro terra e aspiro luz. Ouço vozes de quem? A água penetra pelas fendas dos escombros, a chuva não desiste, e penso porque não se dá o troco, porque não chove terra pra cima. Rastejo pelo chão de tijolos quebrados e vergalhões enferrujados. Não eram vozes, eram roncos de máquinas. E essas máquinas funcionam como parteiras, pois me dão à luz pela segunda vez na vida. Não imaginava que parafernálias feitas para destruir construções serviriam para me trazer a vida – mais uma vez. Sobrevivo com goles de esperança, a conta gotas, quando me abrem espaço entre pedras maiores, telhados despedaçados e janelas que não abrem mais. Cortinas que se fecham .






Não há tempo. Silêncio. Rápido. É preciso pisar leve sobre o monte de terra. O monte de lama. De lixo. É preciso sutileza para pisar sobre gentes. Nunca tinha visto avalanche de corpos invisíveis e seus destroços. É complicado passar pelas mães sem filhos. É difícil passar pelas mães com filhos. Mas no percurso da tragédia, não há diferença. Escavar a terra em busca de esperança. Quantos enterros serão necessários para a mesma pessoa? Perde-se tudo. Meu trabalho é importante, volto à realidade, não posso emocionar-me. Não aqui. E continuo a caminhada pelos escombros, pedaços de concreto, lajes quase inteiras no chão, terraços debaixo da terra. A vista de onde estou é cega, não há sentido na dor. Não há equilíbrio ao passo que vejo mãos pra fora do chão, pernas para dentro do solo, metade de pessoas embaixo da terra, metade no pé do morro. É triste olhar de cima e ver todos os parentes, vizinhos, rostos aflitos esperando por milagres. O céu tem cor de lama e não há chão que suporte o cheiro de morte.





Minha força arrebenta tudo que vem pela frente. Aliás, tudo que está na minha frente, porque quem vem, sou eu. Arrasto árvores, construções e crianças. Permito que alguns escapem, mas minha língua úmida e ácida não poupa nem infâncias nem velhices: desconstrói vidas. E durante a enxurrada humana, ouço gritos abafados. O calor da terra me queima o corpo, mas nem por isso deixarei de escorrer minhas lágrimas salgadas: eu broto das nuvens carregadas pelas previsões. Profecias. Ao descompor-me em relâmpagos líquidos, parto em raios a insatisfação da natureza: enterro vivos os vivos.





Ao descarregar-me do alto, me distribuo em lascas d´água sobre os amontoados de terra e lixo. Deslizo entre raízes mortas e troncos podres. As pedras, prestes a desfilarem sem ordem morro a baixo, me impedem de transportá-las pelo curso da previsão: imprevisto, portanto. O cheiro de lixo e o gosto da terra atravessam corpos soterrados pelo susto, atropelados pela dor: abandonados pela vida. O pouso do céu em pistas verticais destroça lares e famílias. Corações sujos de lama.





Feridas nos braços e pernas. Rosto empoeirado pelo cimento seco. Ossos quebrados, sei porque os sinto. Mãos dormentes, sei porque não as sinto. Ouço pedidos de silêncio sobre mim, mas não ouço silêncio. O que sobra aos ouvidos são estalos de estruturas e o córrego de lixo flutuante. Chove novamente, mas espero que pisem por aqui, espero que me achem, espero que eu me ache, porque me perdi na escuridão dos escombros. Árvores envelhecidas pela água podre, desprendidas do solo, cambaleiam pelo barranco onde antes fiz meu lar, porque não tinha onde morar. Habito, portanto, outras vidas dentro da minha, que são meus filhos. Não sei onde estão. Não sei, mas sei que os sinto.






Anos de trabalho, por isso escolhi salvar vidas. Meu suor da testa impede que a chuva nos vença. São águas diferentes, mas comigo caminham de mãos dadas. É difícil esperar que essas aranhas metálicas gigantes, que chamam de escavadeiras, localizem vidas. Aqui do alto, em cima de uma delas, sou um pescador humano. Procuro pelo mar de lama, em meio à ressaca, com o olhar atento e triste, alguém que esteja mergulhado entre lajes e concreto. As pás dessa parafernália servem como anzóis de esperança, enferrujados pela cachoeira dos céus, mas que podem fisgar corpos quase vivos – ou quase mortos. Minha profissão serve para curar feridas do homem causadas pelo homem. Ferir-se é especialidade humana.



Culpa da natureza?

terça-feira, 23 de março de 2010

Nascimentos

"Os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim quando a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos." 


- Gabriel García-Márquez em "O Amor nos Tempos do Cólera"

(para Braz Silva)


O primeiro dia que entrei numa redação de jornal foi diferente do primeiro dia que entrei numa redação de televisão. Não pela idade, porque todos somos crianças quando fazemos uma coisa pela primeira vez. Mas era novo quando me abriram as portas daquela sala imensa, hoje localizada num prédio abandonado na zona portuária da cidade. Reparei logo naquelas pessoas que corriam por entre as baias e máquinas de escrever. Todos tinham cara de sono. Era um domingo. Tinha jogo no Maracanã. Esperava sentado na cadeira, com uma esferográfica na mão, e rabiscava matérias fingindo ser repórter. Do outro lado da redação, via meu pai gesticulando numa roda próxima ao café. Eu continuava a escrever rabiscos. Percebi depois que teria mais graça datilografar do que escrever à mão, mas, ora, tinha que aproveitar a oportunidade: aprender a escrever com gestos.






Anos mais tarde, conheci o Braz Silva. Foi o segundo primeiro dia que entrei numa redação. Era um homenzarrão, devia estar com mais de setenta anos, mulato, voz firme e sorriso vazio. Coçava a cabeça quando não estava certo de alguma coisa. Mas quando tinha certeza de outra, levantava e abaixava a cabeça lentamente, fechando brevemente os olhos e abrindo um pouco a boca, projetando levemente o queixo para frente, com os óculos de lentes grossas deslizando pelo nariz, como se a serenidade escapasse por entre os poucos dentes. Alô, alô, câmbio. Respondia assim aos chamados de quem conversasse com ele por entre ondas sonoras. Não esqueceria nunca daquele dia, uma sexta-feira, quando debutei numa sala de polícia de redação, para uns, escuta, para outros, apuração. Para todos: profissão. A falta de sintonia dos rádios, as pequeninas televisões aos berros, as maiores mudas, as pessoas correndo por entre as baias e computadores, não mais máquinas de escrever. Se bem que computadores não deixam de ser máquinas - que não deixam de escrever. Peguei a primeira esferográfica que encontrei e deixei a que trouxe de casa na pasta, porque não tinha graça escrever de casa, escrever com a casa nas mãos, que ali era a caneta, e rabisquei qualquer coisa fingindo ser repórter. Fingindo ser criança. Do outro lado da redação, não via meu pai gesticulando numa roda próxima ao café. Mas eu continuei a escrever qualquer coisa, liguei a máquina de escrever que agora chamava-se de computador. As pessoas que corriam por entre as baias também tinham cara de sono. Mas eram outras pessoas, eram outros tempos. Era outro, mas não deixava de ser eu.





Descemos e fomos almoçar no refeitório do jornal. Vazio. O barulho dos metais percorria o salão das refeições enquanto meus olhos percorriam as paredes do salão, enquanto meus ouvidos prestavam atenção em tudo que eu não podia ver. As bandeijas eram pequenas e honestas, os talheres desafinados mas limpos, nem tão limpos. Mas cortavam a carne. O pão dormido e as pessoas com cara de sono. Antes de ter tempo para lembrar, meu pai brincou comigo ao perguntar se aquele almoço matinal não me lembrava os almoços do colégio. Não pelo horário, porque todos almoçamos cedo quando crianças. Mas, pela segunda vez na vida, e não haveria de ter outras oportunidades, eu matava a fome na bandeija. Meu pai me disse que durante sua infância ele matava a fome com sonhos e comida. Então percebi que comer é caminhar para alcançarmos a nós mesmos. Aos nossos sonhos. Porque todos somos crianças quando fazemos uma coisa pela primeira vez. Percebi que estudava em dois colégios.





Eu gostava de chegar mais cedo para conversar com o Braz. Na verdade, ele saía quando eu entrava, eu era sua rendição. Então, gostava de chegar mais cedo por dois motivos: para conversar com o Braz e para rendê-lo. Mas funcionava bem o esquema, um iniciante na profissão e um veterano de guerra, com perdão do trocadilho. Ele me relatava resumidamente o que tinha se passado de madrugada. Mas tinha o costume também de relatar o que não tinha acontecido na mesma madrugada. Com detalhes. E quando me contava o que ainda iria acontecer, não necessariamente na madrugada, era quando eu entrava em pânico. Braz me tranquilizava, dizendo que as coisas sempre acontecem, mesmo que a gente não saiba. E quando ninguém sabe de nada, não necessariamente na madrugada, dificilmente algo acontece. Perguntou-me se eu tinha entendido. Dizia que sim, para que continuasse a conversa. Se dissesse que não, poderia perder a paciência ou deixar o assunto de lado. As pessoas costumam fazer assim. Dizem que entendem para seguir viagem.





Para todos os efeitos, algumas previsões do sábio repórter se davam, outras também. Nunca errava. O que me chamava mais atenção era sua tranquilidade diante das mortes que apurava, dos crimes que escrevia, mesmo contaminado pelos berros dos que tinham cara de sono, pelo barulho covarde das televisões sintonizadas no mesmo canal, como se vivêssemos numa dieta intelectual rígida. Sua serenidade em desligar-se da fábrica sem deixar de finalizar o produto. Era outra pessoa de outro tempo. Mas eu também era outro, mesmo sem deixar de ser eu.





Arroz, legumes pálidos e um pedaço de carne. Refrigerante não havia, apenas suco, ou melhor, como costumava dizer meu pai: refresco. Suco é natural. Levou tinta, é refresco, mermão. Tudo bem. Voltemos à bandeija, aos talheres, ao salão. À refeição. Despreocupadamente terminava o almoço, lembro que demorei a comer para observar os outros que estavam comendo, prestava atenção às conversas nas mesas. Não cheguei a calcular o tempo que levava o trajeto da comida à boca, porque o garfo servia também como caneta, não porque escrevia com aqueles dentes metálicos, mas porque anotava com meu gesto, premeditadamente ensaiado, todo os movimentos ao redor da mesa, enquanto meu pai reparava que eu reparava tudo a meu redor. E ainda: ele percebia que eu disfarçava minha curiosidade inventando velhos hábitos à mesa. Novos hábitos, portanto.





Certa vez, décadas atrás, Braz trabalhava num jornal de pequena expressão. Naquele tempo, eram poucas as redações que dispunham de carros de reportagem. A Baixada Fluminense era, toda, uma cidade imensa. Erma. Uma cidade que tinha várias cidades dentro. Os repórteres de polícia costumavam caçar matérias em lugares afastados do centro urbano, talvez por isso a cidade das cidades tivesse sempre casos interessantes. Os jornalistas, portanto, combinavam um horário e dividiam um táxi a caminho da metrópole suburbana dos casos policiais. Quatro jornalistas. Quatro histórias. Um táxi. Era jogo, porque o repórter saía da redação sem nada, apurava uma matéria e voltava com outras três. Naquele dia, ao desembarcarem em Queimados, não lembrava ao certo, Braz e seus colegas de outros jornais, se dividiram pela região. Percorreram algumas favelas e delegacias. Ouviram. Anotaram. Perguntaram de novo. Anotaram. Fim do dia, ponto de encontro, outro táxi para quatro veículos.






Acomodaram-se nos bancos e começaram a trocar informações durante o trajeto de volta ao centro. Um a um, os repórteres se valiam de seus feitos, vangloriavam-se de suas apurações: “Fiz um homicídio de uma mulher! Tenho todos os detalhes!” ou “Aquela chacina foi boa, uma família inteira, rapaz. Mas a mãe não quis me receber, disse que tinha medo.” Ou ainda: “não consegui nada de bom, só um assaltozinho na padaria, não dá pra muita coisa...”. Mas não houve melhor: “Ih, mais um estupro. Toda vez que venho aqui, faço unzinho. Juntando com os últimos, dá pra fazer render. Já imagino a manchete...” e risadas e mais risadas. Foi quando o motorista do táxi, aflito e temeroso com os primeiros casos, não teve mais dúvida da corja que transportava em seu veículo, comprado com dinheiro honesto, e, tremendo de medo e apavorado com o que poderia acontecer consigo, afundou o pé no acelerador e tomou uma reta sem freios. O carro invadiu a delegacia da beira da estrada, na saída de Queimados, e o motorista saiu do táxi pedindo ajuda, chorando, nervoso, desesperado, implorando para que alguém intervisse, que estava com quatro assassinos, com quatro maníacos, quatro criminosos. Quatro histórias. Um táxi . O delegado do distrito, ao sair para ver a confusão, reconheceu os jornalistas e bradou: “quanto tempo, rapaziada?! Já querem minha ajuda? Qual foi o crime dessa vez?” O taxista, desnorteado, e pasmo pelo que acabara de ouvir do policial, virou-se para o delegado: “não é possível! até o senhor, doutor?!”





Os domingos com meu pai eram sempre os mesmos. Ainda bem. Depois do almoço, tinha jogo. Antes também. Chegar na redação era clássico. Depois do bandeijão do prédio hoje antigo, tinha almoço em outras redações. Não fui a muitas, mas apenas duas foram as primeiras. A minha profissão tem vários inícios, muitos meios. A minha profissão tem fins.






O primeiro dia que entrei numa redação de jornal foi diferente do primeiro dia em que nasci. Não pela idade, porque todos somos crianças quando fazemos uma coisa pela primeira vez.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Sólidos

O vento quente lhe queimou a fronte e o calor era tanto que suas pupilas arderam sem trégua. Não adiantou esfregar as pálpebras, mas também não adiantaria mais, pois as solas dos pés em carne-viva lhe tiraram o refresco das cascas que se fizeram perto dos calcanhares e dedões. O pescoço ardia como tivesse sido incinerado por chamas imaginárias da cachaça, chegou a pensar que tinha derramado a aguardente na nuca por descuido, mas viu que estava sem ação, deitado sobre uma frigideira gigante, com a pele grudada na superfície fervida pelo sol. A boca ferida pela brasa ainda doía, mas o vapor do asfalto quente e o suor da testa lhe condensavam qualquer raciocínio e lhe cegavam a razão, se é que ainda havia, de modo que só depois de intermináveis segundos deu-se conta que havia desmaiado no meio da rua. Estava esparramado no chão e todos em volta lhe chamavam bêbado e vagabundo, além de lhe apontantarem dedos, e foi castigado com uma saraivada de cuspes, xingamentos e pontapés. Vivia a solidão do tumulto.




Os pequenos ferimentos nos joelhos e canelas não lhe tiravam a força das pernas. Eram finas, mas fortes: eram sólidas. As veias saltavam na pele queimada de seu corpo castigado pela miséria. Dobrava o indicador e batia na porta de restaurantes e botequins à espera da sobra. Era quando abria aflito a embalagem de papel laminado, catando pedaços de carne com as mãos, dobrando o papelão que antes serviu de tampa, transformando-o numa colher de papel, olhando rapidamente para esquerda e para direita, à espreita de não se sabe o quê, mas ele sabia, ora, então não importava que não soubessem outros. O saco de lixo se abre e do fundo surge a garrafa de água mineral com outro líquido dentro. A fumaça espessa do cigarro aceso e barato arrematava o ritual com o gole curto da cachaça envelhecida pelos bueiros, e não tonéis, mas ambas deterioradas pelo tempo. Morriam três fomes.




Os pés descalços caminhavam entre cacos e farpas e sentia na sola grossa os calores do sol e da terra. A água suja e escura das poças intermináveis dos asfaltos lhe aliviava a pele maltratada pelas pedras das calçadas. O rosto sujo afastava quem passasse, mas gostava disso, pois seus dentes podres não lhe permitiam viver de fome, por isso bebia sonhos engarrafados.





Vagava pelas ruas, equilibrando-se em postes e canteiros, ao passo que tropeçava sempre no saco plástico onde levava a aguardente e restos de jornais velhos. Carregava a vida nos ombros. Dormia em qualquer canto, debaixo da marquise mais vazia, com menos gente como ele, quantas pontes não lhe serviram de teto e quantos caixotes não lhe serviram de mesa. Quantos sonhos não lhe serviram de chão? Tragava mais uma e limpava a boca com as costas da mão, depois de grunhir alguma coisa, e o riso fabricado pela cachaça lhe rompia a boca ferida pela brasa da guimba. Costumava adormecer bêbado com o cigarro aceso, por isso fumava dormindo.



Lembrou dos pedaços de serpentina, das tintas borradas no rosto e confetes feito chuva de cores. Mas permanecia vencido no chão. Trapos, latas e sacos plásticos. Lenços, chapéus e véus, perucas desfiadas pelo calor. Camisas rasgadas e sorrisos também. Os galhos das árvores do parque eram seus cabides. Estirados ficavam apenas os lençóis imundos e dilacerados por causa das disputas pela sombra. Então seus olhos se perderam no fim da tarde porque não sabia mais qual dia terminava e qual estava para começar, diferença portanto não fazia mais, então olhou as estrelas que mais pareciam confetes de luz, como nos carnavais que viveu até ali. E não esqueceria nunca quando lhe disseram que sua vida era uma fantasia. Suas vestes e seu bafo, seu cheiro de morto, seu sorriso triste e sincero, seu peito ferido e seu corpo abandonado. O passado era sólido.




Por isso não tinha sonhos.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Líquidos

Soslaiando as moças que desfilam pelo calçadão – para isso que servem os óculos de sol – um pingo salgado percorre a testa e me lubrifica os olhos curiosos do calor. Percebo, mas permito que a gota de sal adocicada pela luz siga seu trajeto pela maçã do rosto. Outras gotículas de mim surgem entre o nariz e boca, quase uma lágrima de verão, um sofrimento voluntário ao que me submeto nesta época do ano. Padecer no paraíso, não: é regozijar-se no inferno. Uma cachaça!





Sola do pé na areia quente, bombas e mangueiras espirrando água de algum lugar, caminho obrigatório para quem busca outro líquido salgado, desta vez o mar. Ondas de calor, outras do oceano, uma pororoca de temperaturas, outra de temperamentos. Cadeiras enfileiradas, barracas escondendo gente escondida da lua quente, cerveja gelada, mate e limão, mais suor descendo pelas axilas a caminho das costelas, água engarrafada, nuvens acovardadas pela falta de vento, mais suco de cevada, estalando os beiços de satisfação, um prazer desmedido, medido pela bexiga, outro líquido se forma ali. A língua absorve os gelados liquefeitos, mas a saliva desaparece, então como resolver a boca seca, como saber a saída, se a entrada do calor é incessantemente desesperadora. Não adianta descobrir soluções líquidas, no verão engolimos sapos, e os verões nos engolem inteiros. A cabeça fervida vagarosamente, quantos sangues se misturam, o quente da impaciência, o frio da intolerância, quando chegam os fevereiros, antes e depois da carne. Talvez por isso tenha apenas vinte oito dias, porque nunca se soube porquê no segundo mês do ano cabem tantos dias intermináveis, que passam de hora em hora. O Rio de Janeiro deveria, também, chamar-se Mar de Fevereiro, ora, faria jus –com mérito – à cidade dos vapores e dos líquidos.




E a confusão de desejos do calor desconserta o corpo, a vontade de matar a sede e a bexiga são irmãs gêmeas, nunca se teve tanta vontade de expelir e ingerir líquidos, gelado e quente, necessariamente nessa ordem, onde se tira leite de pedra, ou quase isso, água do côco, mas comemos a pedra, ou melhor, o côco, e as meninas do calçadão já estão bem ali, ó, proporcionando o maior espetáculo da praia: despir-se. Agora fito e não mais as soslaio, quando elas tiram o short, sempre justo ( e que justiça!), rebolando caprichosamente sem sair do lugar, para que o pedaço de pano que não serve mais (agora) escorra joelho abaixo, tirando uma perna e depois a outra, como pulassem a corda uma vez só, lentamente, ou, ainda, quando desprendem a canga da cintura, desenrolando as coxas e o quadril, forrando a areia incandescente com o tecido fino tinturado. O biquíni é coadjuvante –sempre foi – e a graça, agora, são outros pedaços, o de carne, e o de pele. À vista. Aí, a sede que dá é outra e não há líquido que a sacie, mas o paladar também se aguça com a visão. E que visão!




Levanto bêbado e bronzeado de cerveja, mergulho no mar quente e transparente. Quantas águas matarão a minha sede? Tantos cursos desse rio de verão, suor lambendo a fronte, e aperta a vontade de desafogar a bexiga. Acima, no mesmo calçadão do desfile das moças, surgem na mesma passarela as marchas, as orquestras de rua, cervejas ambulantes, mijos ambulantes, suores ambulantes, salivas deslizantes, línguas para fora, outras para dentro, bocas, beijos, abraços, sovacos, enfim, blocos de gente e gente de blocos. Há quem goste, há quem tolere, são temperamentos diferentes sob a mesma temperatura, como fiz entrever mais acima, não no calçadão, mas no segundo parágrafo desta cachoeira de letras, frases e pontos. Prefiro o mar e suas sereias da areia, prefiro a areia com seus tapetes finos e sedosos, que sobre eles, repousam as musas da estação mais sedenta do ano. Será que verão como as vejo?





Para isso servem os óculos de sol.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Vapores

Fechar os olhos é refrescar-se. Mesmo buscando refúgio em farmácias, bancos e lojas, quando me arrasto em súplicas por um copo d´água, começo a falar sozinho para me fazer companhia. Se é efeito da temperatura ou surto psicótico, não chega a me interessar saber, basta não fazer juízo da minha cabeça fervida nos dois banhos: o maria e o de sol. Então começo a não mais me reconhecer – se é que já alguma vez – e embaralho a língua, cansada e seca, com os dentes amolecidos pela fome e passo a ter certeza que a rua tornou-se uma imensa cozinha, com fogões ambulantes desfilando na passarela de piche, o mesmo piche que me grudou a sola dos pés, também o mesmo asfalto que agora é uma piscina escura, um mingau turvo incandescente, então meus refúgios, bancos, lojas e farmácias, funcionam como geladeiras imensas, estáticas, congelando meus movimentos, refrescando meu rosto, me proporcionando o prazer instantâneo do contraste das temperaturas. São tantos fogões cruzando meu caminho com suas bocas enfurecidas, panelas espalhadas nas brasas portuguesas, que antes eram pedras, tantas geladeiras fantasiadas de estabelecimentos, além dos microondas transmitindo outras ainda maiores, que até os aeroportos decolam sem sair do lugar, porque lá refresco não há, portanto ir de avião é viajar duas vezes, uma ao percebemos que o saguão não é – mesmo – um freezer, porque o ar condicionado não está condicionado à má sorte, portanto, pergunta-se, que é o destino senão um vínculo de previsões, quando a viagem de volta está concluída antes da de ida. E quando embarcamos, aí, sim, consuma-se a segunda viagem, nem fria - nem calculista. Devaneios de verão são delírios de veraneios. Ah, que sede!






Sobrecarregado e sonolento, sob miragens e sombras, vou-me repartindo nos vapores da terra, sob sol noturno diário. Faz calor e o asfalto me suga os pés. A fronte encharcada de tantos calores que não faz mais diferença se aperta a chuva. A estiagem é um intervalo d´água, um reflexo sem espelho. A caminhada pela calçada escaldante me arranca lascas do tempo – não necessariamente só do meu – e padeço voluntariamente a cada respiração planejada: os pulmões funcionam como motores de arranque, ora, não por isso vou mais rápido para onde não calculei, qual benefício isso me traria, trocar de ares é sempre bom, principalmente quando cuspimos calor carbônico e sorvemos oxigênio misturado com luz. Sem sombra de dúvida, respirar é um bom negócio, mesmo quando se está quase vivo.






Sonolento e sobrecarregado, e aporrinhado pelos apelos condensados dos que estavam aqui embaixo, o céu lilás desceu do pedestal. Descompôs-se numa enxurrada que mais pareciam espirros seguidos de escarros e cuspes, e assoadas no nariz, correntes de ar, ares quentes, ventos úmidos, que todos correram e foram se embrulhar nos fogões andarilhos e nas geladeiras gigantes, havia os que ficassem nos corredores do imenso supermercado de gente, havia quem acenasse do alto das prateleiras de concreto, edificadas ao passo dos corredores, além das outras pessoas que posicionaram-se em outras seções. Um castigo em pingos grossos e ríspidos.






A cidade tornou-se um caldeirão de fumaça, chovia em todos os cantos, as brasas portuguesas evaporavam-se, as panelas ferviam ao lado dos fogões metálicos, assim como os caixotes com rodas, crianças derretendo pela rua, velhos gratinando nas filas intermináveis de uma geladeira econômica, outros na dos fármacos, o mingau de asfalto engrossava a medida que os pingos compridos de água lambiam os suores de quem voltava do trabalho, assim como alforriavam os operários que trabalharam a seco na construção predial de oásis à beira-mar. Não importava que os alagamentos transtornassem as pessoas, mas era curioso como, de uma hora para outra, a cidade trocava um caldeirão de piche, fogões, geladeiras, brasas, calores e gente, por uma imensa panela cheia de água morna, cuspida de cima por sabe-se quem, ou não se sabe mais, também isso não interessaria mais discutir, o negócio é que estávamos condenados a sermos escravos do tempo.





O sol implacável e a chuva imprevisível. Era como se fôssemos vapores de nós mesmos, como espíritos vagando pela rua, mas sem abandonar a carne, estávamos como fantasmas pairando pela atmosfera vulcânica do verão. A cidade estava condenada a não mais depender dela mesma – se é que já alguma vez – e tornou-se refém da natureza.





E para isso não há previsões.